quarta-feira, 2 de março de 2011

205/55 R16

Quando o grupo foi formado, me lembro bem, éramos cinco. Por que cinco, se só quatro desempenhariam todas as funções? Tal era a pergunta de todos nós. Mas, inertes como sempre fomos, esperamos o juízo dos nossos superiores.

Pouco antes de iniciarmos as atividades, fomos apresentados às nossas funções. Fui o último da fila e notei que não parecia sobrar nenhuma função para mim. Estávamos certos afinal: apenas quatro bastariam.

Acaso algum de vocês já foi considerado desnecessário? Supérfluo? Maior humilhação não há. É preferível ser considerado nocivo que desnecessário. É melhor ser odiado que ser desprezado.

Mas enfim, eis que me colocaram de lado e então entendi: Eu, em segundo plano, estava ali para esperar a minha vez. A minha vez para que? Talvez para algo maior? Eu me perdia nesses pensamentos e apenas a minha inércia me mantinha ali, quieto, esperando.

Era até engraçado. De tempos em tempos, vinham e se certificavam de que eu mantinha a aptidão para os serviços. Nesses dias, eu pensava que estava chegando a minha vez. Mas nunca chegava.

Passaram-se alguns anos e aos poucos perdia as esperanças. Não havia nada de grande me esperando. Perguntava-me: Porque justo eu? Eu era igual aos outros, tão capaz quanto eles! Poderia fazer tudo que eles faziam, e com a mesma eficiência! Eu havia sido injustiçado, e isso me deixou amargurado como o diabo.

A amargura me trazia terríveis pensamentos, inveja, desejo de vingança. E isso não foi de todo ruim: Percebi, nesses devaneios, que algo poderia me colocar no meu lugar de direto. Era necessário que apenas um dos outros quatro se mostrasse incapaz e eu poderia provar a todos que era tão bom quanto eles! E nesse dia todos saberiam o erro que fora me manter lá, naquele maldito limbo!

Então eu esperei. E esperei muito. Você já esperou muito por algo, meu amigo? A gente se cansa, deixa de ver graça na vida. Se é que existe alguma graça pra ser vista... Bom, o caso é que depois de uma longa espera eu não queria mais nada: Queria apenas que tudo fosse pro inferno. Eu era só ódio, maus dias aqueles...

Nem me lembro direito em que dia aconteceu. Um deles fracassou, não conseguiu superar um pequeno obstáculo. Certamente os vários anos o haviam desgastado. Em todo caso, ele falhou, furou, como disse nosso superior naqueles dias.

Eis que então fui considerado necessário: a espera havia chegado ao fim. Com que prazer enorme eu diria: “Não! Vocês não podem me desprezar e então decidirem que precisam de mim! Se virem sem mim agora, pago pra ver!” Mas não disse nada e fui colocado obedientemente no lugar do meu fracassado companheiro. Afinal de contas, o que pode um simples pneu fazer?

4 comentários:

Astronauta de Mármore disse...

Iral, precisava te parabenizar!

Li seu texto sem entender nada, mas ao chegar ao fim...muito bom!

Fernando Filho disse...

geniaaaaaal!

Kanibalas Kunigas disse...

incrível.. no fim.. quando eu matar todos os membros (para que sejamos sempre anonimos) deixarei você por ultimo!

Iral Levirc disse...

Não creio que você tenha estômago suficiente, K.K., não para as minhas entranhas.

Obrigado, meus amigos e caro leitor, Fernando.