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terça-feira, 29 de novembro de 2011

E eis que chegamos ao fim

Quando terminei minha história, Matthew me olhou como se esperasse algo mais e ,vendo que eu não continuava, apenas se levantou e foi embora. Meu Deus, como ele me era familiar! O jeito de andar, o olhar protetor...passaram-se dias e nada da visita de meu amigo e, então, numa tarde qualquer ele apareceu.


Eu não estava em meu quarto e sim passeando no jardim, nós nos sentamos em um banco de madeira e ficamos assim por um tempo, um olhando para o outro, ambos como se esperassem respostas.


"Por que desapareceu por tanto tempo? Me deixou aflita! Resolveu fazer como Lionel, que me fez esperar tanto tempo sua volta e..." Meu coração quase saltou pela boca . Ah céus agora tudo fazia sentido! Tamanha semelhança não era coincidência! Ele não era um amigo, nem sequer era Matthew, aquele homem misterioso e tão solidário era Lionel, meu querido irmão!


Joguei-me em seus braços e nós dois choramos com tanta força que quase faltou-me o ar. Foram todos esses anos me procurando, para me encontrar ali, jogada num hospício!E eu não fui capaz de reconhecer meu próprio irmão, contei a ele toda minha história e nem ao menos percebi a emoção em seus olhos! Entendi, então, que, de fato, todos eles tinham razão.


Por que eu era a única que recebia as visitas de JJ? Por que somente eu falava e ele apenas sorria? Por que eu tinha rugas, fios brancos e ele continuava jovem e belo? Por uma simples razão: JJ estava morto e eu estava louca.


Minha falta de lucidez nunca me permitiu ver o absurdo que me acontecia: fugi de casa, fechei a porta para o mundo e vivi anos na companhia de uma alucinação!É claro que nada disso era normal...


Isso tudo fui percebendo aos poucos - a cada nova constatação, uma dor - segui meu tratamento e superei minha loucura, meu desespero, meu desequilíbrio e hoje vivo com Lionel e Cathy - que permanecem casados, e com o mesmo amor cúmplice e tranquílo.


E aqui, meus queridos leitores, encerro minha narrativa, minha história sobre uma mulher, cujo único mal foi ter amado mais do que podia.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Em que se encerra uma parte da história

"JJ continuou me visitando, todas as noites, no mesmo horário. Ele aparecia, sorria, mas não dizia nada, apenas eu conversava...e Lionel e papai continuavam desacreditados, até Cathy duvidava de mim!
Eles, então, passaram a me olhar de forma diferente, com cuidado e até pena, várias foram as vezes em que interromperam uma conversa devido a minha chegada. Pareciam estar planejando alguma coisa e , de fato , estavam.
O plano era me levar para uma clínica psiquiátrica - mais uma vez . Entrei em total desespero quando descobri, eu não podia ser internada, eu não era louca!Foi então que tomei a decisão que encerrou, de vez, todas as mudanças da minha vida.
No dia seguinte à descoberta, fugi de casa. Com apenas uma mala na mão e algum dinheiro no bolso, eu fui embora...
Não me lembro, ao certo ,como sobrevivi, sei que várias vezes dormi na rua, viajei de carona para outras cidades e tive vários empregos temporários...certo dia criei coragem e voltei a Willmington, mas aí soube que meu pai havia morrido e, tomada pela tristeza, fui embora novamente - Lionel e Cathy nem sequer ficaram sabendo da minha aparição.
E o tempo foi passando, consegui cuidar da minha vida e comprar uma pequena casa - onde moro até hoje - mas as coisas não estavam melhorando para mim. Eu era sozinha, completamente sozinha, minha única companhia era JJ ( não, ele nunca me abandonou!), tinha uma vontade imensa de voltar para casa mas não podia e , mergulhada nessa tristeza, minha vida foi se apagando em volta de mim.
Tranquei-me em minha casa, saindo apenas quando muito necessário, fechei para sempre todas as janelas e me acostumei com a noite constante...em que ano estamos meu querido? 2002? Pois bem fazem cerca de 20 anos que assim eu tenho vivido, digo, nós temos vivido, eu e JJ".

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Dia Negro (1968)

Eu escrevo - ai escrevo, meu Deus!escrevo! - porque já deve ter recebido um oficial em nossa casa. Helena, peço simplesmente que não me faça maiores perguntas a respeito do que se passou, nem sequer acredito que queira realmente saber.
Eu que achava que a guerra já tirara todo o sangue , todo o meu sangue necessário, agora tira absolutamente todas as minhas lágrimas...Deus sabe (Deus?) o que venho passando desde o falecimento de nosso querido Jack. Porque todos nós o amávamos, Helena.Todos éramos apaixonados por ele. Talvez tivesse você o maior dos amores, mas tinha eu a maior das amizades, e era fiel a essa amizade. Querida, eu lhe juro que se estivesse em minhas mãos naquele momento agir de qualquer maneira para evitar que a Morte cumprisse seu honorário, eu juro sim minha irmã que teria feito! Creia-me.
O corpo do nosso estimado vai ser enviado de volta à América juntamente com os demais, e juntamente com o meu que não me parece vivo. Volto, Helena. Enfim subirei do inferno ao purgatório.
Torça por mim em meu julgamento, porque não sei se serei absolvido.

Despedaçado,

Dança Com Lobos.

domingo, 18 de setembro de 2011

1978

Oito horas. Essa foi a hora em que soube da morte de Jack e é essa hora que marcam todos os relógios de minha casa. Minha vida parou naquele momento, por isso achei que faria sentido parar os relógios também.
Lionel voltou da guerra,pois o ferimento em sua perna tornou impossível seus serviços no exercito. O corpo de JJ também voltou, dentro de um caixao, acompanhando de outros mortos. Eu não tive coragem de ir recebê-lo, fui apenas no enterro para vê-lo pela ultima vez. Lembro-me exatamente, o discurso do padre, as flores, o caixão descendo, descendo...depois tudo virou escuridão.
Fui perdendo o interesse pela vida, ninguém conseguia me ajudar, eu simplesmente não queria ajuda, foi então que...bem, eu não me orgulho de ter feito isso, mas prometi a mim mesma dizer toda a verdade a você,...eu tentei me matar, enchi-me de remédios, de vários tipos, mas Lionel encontrou-me caída no chão do quarto, levou-me para o hospital e os médicos conseguiram me salvar. Depois disso fui obrigada a um tratamento psiquiátrico e acho mesmo que funcionou, mas cá estou, internada num hospício!
Enfim, eu não tentei o suicídio novamente, mas nem por isso minha vida melhorou e, sem nenhum interesse meu por ela, o tempo foi passando. Os Estados Unidos perderam a guerra,- e Lionel, mesmo não dizendo, sofreu muito com isso - meu irmão e Cathy se casaram e papai adoeceu. Quanto a mim, passei a me isolar cada vez mais em meu próprio mundo.
Foi então que aconteceu, dez anos se passaram desde a morte de JJ, estávamos em 1978 portanto. Eu lia um livro qualquer, numa noite em meu quarto, exatamente as oito horas, quando o vi. Sim, JJ estava lá, parado em minha porta, sorria para mim da maneira mais doce possível. Foi um susto tão grande! Corri ao seu encontro, mas ele desapareceu, não estava em lugar nenhum, mas não importava, meu amor estava vivo!
Contei a papai e Lionel imaginando que eles ficariam radiantes, mas eles não acreditaram em mim, acharam que eu estivesse "vendo coisas". Mas JJ estava vivo, eu tinha certeza!"

sábado, 6 de agosto de 2011

Agora sim, a razão de tanto sofrimento

"Muitas coisas aconteceram durante a guerra, as cartas foram se tornando cada vez mais escassas, JJ se feriu em uma batalha - nada grave, para meu imenso alívio! - e Lionel finalmente mudou sua opinião. Ele passou a odiar a guerra e todas as suas consequências, o contato com o terror destruíram a visão otimista de meu irmão sobre o mundo e somente lendo suas cartas era Justificarpossível entender e sentir a emoção e a revolta que havia em seu coração. A guerra, essa forma monstruosa de disputa, mudou a vida de meu querido Lionel - de meu Dança-com-lobos, como o chamavam no exército - e estava prestes a mudar a minha.
JJ ao contrário não parecia exatamente assustado com o que vivia, em suas cartas ele dizia sentir que estava fazendo o certo, o necessário, nem mesmo parecia abalado.Talvez tenha sido esse excesso de coragem sua própria perdição.
Foi numa noite, em Setembro de 68, exatamente às oito horas, que a vida que eu conhecia recebeu um ponto final. Cheguei em minha casa após ter passado o dia com Cathy, e , para meu espanto encontrei o pai de JJ - digo espanto porque o vi somente uma vez em minha casa, então devia ser algo muito importante - ele parecia muito abalado, o que causou-me arrepio. Pediu que me sentasse e obedeci.
Com muita cautela o pai de JJ explicou-me que seu filho e Lionel haviam sido enviados para uma certa missão especial, mas esta fracassara e..."
Nesse momento precisei parar a narrativa, tamanho era o descompasso do meu coração, Matthew, igualmente abalado, encorajou-me a continuar e eu, com um nó terrível na garganta, prossegui.
"A missão falhara, a tropa foi atacada ferozmente, houve vários bombardeios e não fosse a chegada a tempo dos reforços não teria restado nenhum soldado americano. As lágrimas começaram a formar em meus olhos. Lionel se feriu levando um tiro na perna mas em pouco tempo se recuperaria, JJ não teve a mesma sorte. Quem chorava agora era ele. JJ recebera um tiro no peito, foi levado para a base e atendido às pressas, resistiu muito mais do que o esperado pelo médico, mas não foi o suficiente. JJ, o único homem que eu amei, estava morto.
Eu nem sequer consigo me lembrar de minha reação, acho que foi a pior de todas as minhas crises, havia tanta dor dentro de mim que chegava a me sufocar. Sei apenas que, cansada de tanto chorar, cai em minha cama e passei a noite toda num estado de transe, abalada demais para perceber qualquer coisa a minha volta".
Era o máximo que eu conseguia naquele dia, e Matthew percebeu isso. Secando suas próprias lágrimas, meu amigo abraçou-me - um abraço tão confortável como nenhum outro - e retirou-se.
Fiquei sozinha contemplando o teto branco, relembrando minha vida e tentando, em vão, entender o que acontecera comigo após aquela noite, o que acontecera com a Helena que Cathy, Lionel e JJ um dia conheceram.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Vietnã, algum dia a menos.

Você se lembra que eu lhe disse adeus antes de partir, Helena? Você se lembra que eu lhe disse adeus depois de você me dizer até logo?
Você se lembra de todas as outras cartas ( nem tantas) que lhe mandei manchadas de sangue, querida?Eu acho que as manchas eram minhas lágrimas. Ou quem sabe minhas mãos. Eu estou completamente, exaustivamente, eu estou farto de ser um monstro, Helena!
Eu lhe disse adeus e acho que foi prudente, porque esse ar é assassino. Não sei se culpo o ar ou os que respiram...
Eu estaria com uma arma apontada a mim mesmo - meu maior inimigo- se ontem não tivesse encontrado uma vida. E você sabe que toda vida que se encontra serve de combustível, não a tanques, mas a nossas almas de soldados.
Era um filhote de cachorro. Sozinho, rem raça. Como a maioria das pessoas e como eu me sinto agora, nesse nada. Estou cuidando dele, tentando protegê-lo do ar, queria levá-lo até outra atmosfera. Ele é uma parte de mim que renasceu, a parte viva. Como uma flor que ressurge das cinzas de um incêndio. Estou me sentindo uma fênix.
Você acredita que as coisas renasçam das cinzas, Helena? Eu passo a crer. E se há algo de belo na guerra, é isso.
Diga a Cathy que meu coração andou dimnuindo de tamanho mas que ela ainda possui seus metros quadrados, assim como você.
Acredito que queira saber de J.J.Ele diz que lhe escreverá daqui a alguns dias, quando a posta se reestabilizar. Assim farei eu também.
Não vou lhe perguntar a respeito dos protestos, porque de certa forma não lhe retiro a razão. E na verdade acho que o que me incomoda neles é que eles não me tirarão daqui.

Sinceramente,


Um Homem que Vive com Lobos ( e dança).

sábado, 23 de julho de 2011

Eu disse não à guerra

"Não posso dizer que os primeiros meses foram os piores de minha vida, pois outros acontecimentos ainda viriam, mas a falta de Lionel e JJ estava me matando. JJ mandava-me cartas com menos frequência do que eu desejava, mas eu tentava não parecer contrariada em minhas respostas para não aborrece-lo, com Lionel havia mais conversas, mas sempre povoadas de discussões - eu não perdia a esperança de convencê-lo de que a Guerra não valia a pena. E assim entramos em 1968.
Cathy e eu tornamos ainda mais amigas, na verdade Cathy era uma espécie de porto seguro para mim, só ela tinha paciência com as minhas constantes mudanças de humor e crises de choro, mas nem sempre os conselhos e apoio dela me eram suficientes.
Certa vez em que estava muito cansada de apenas esperar, um grupo de jovens apareceu em minha vida, lembro de pensar que fosse um sinal ou mesmo um chamado - não estou tentando diminuir minha culpa, veja bem, foi apenas o que pensei - descobri-os em uma lanchonete, programando um protesto, sim eles protestavam, e contra a guerra!Nada mais perfeito para mim. Aproximei-me deles e logo me vi parte do grupo.
Estar envolvida em uma causa reacendeu meu espírito, me deu forças e vontade de viver. Como era de se esperar, Cathy tentou convencer-me de todas as formas a abandoná-los, sem sucesso. Numa noite pintamos todos os muros que pudemos encontrar com pedidos de paz, com símbolos hippies e outras coisas e por pouco não fomos pegos. Mas ainda era pouco.Fizemos então o que considero ser o ponto alto de nossas ações. Reunimos um grande número de estudantes, a maioria universitários, e, munidos de faixas e cartazes, marchamos por toda a cidade fazendo protestos.
Já pode imaginar o resultado, não é? a multidão foi dispersada pela polícia e eu e os outros membros do grupo acabamos na delegacia. Só não fiquei presa por ser menor de idade, mas em compensação vi, pela primeira vez, meu pai realmente ficar nervoso. Ele me disse coisas horríveis, que eu o estava envergonhando, e a Lionel e JJ também, que eu devia sentir orgulho deles e não tentar impedi-los de seguir seus deveres e, finalmente, que JJ e Lionel eram nobres e corajosos, o contrário de mim. É claro que tudo isso foi para mim como um tapa na cara, e resolvi, portanto, voltar à inutilidade da espera."

domingo, 29 de maio de 2011

O Adeus e o Até logo

"Era já inverno, final de 1967, no primeiro dia em que, de fato, nevava em nossa cidade, e a neve parecia querer compensar o atraso.
Estávamos todos reunidos em frente à rodoviária, dezenas de jovens despediam-se de suas famílias e subiam num ônibus, deixando aos prantos moças apaixonadas e pais aflitos. O mesmo fazíamos nós - papai, eu e Cathy. Me despedi primeiro de Lionel, abracei-o com toda a força possível, ele me disse suas costumeiras palavras de doçura e precauções e virou-se para Cathy que, veja só, conseguia até sorrir para confortar seu amado.
Voltei-me então para JJ e olhei bem para seus olhos que, naquele momento, não pareciam altivos, superiores e sim ternos, serenos. Era incrível como nada abalava aquele homem, como era possível que estivesse tão calmo num momento como aquele? Mas estava, e, em contrapartida, os meus olhos revelavam uma noite mal dormida, lágrimas recém derramadas e mais uma tempestade de sentimentos que havia dentro de mim . JJ beijou-me, primeiro nos lábios, depois na testa, e a buzina do ônibus indicou-nos que era chegada a hora".
Mas veja se não é meu amigo Matthew se emocionando! Eu sei , querido, é uma história muito triste e difícil de ser contada, mas acha que se eu estivesse louca, conseguiria contá-la dessa forma? Está certo, continuarei.
"JJ e Lionel iriam de ônibus até o aeroporto de onde voariam, finalmente, para o Vietnã. Meus dois soldados subiram, então, no ônibus, vestindo suas fardas que lhes davam ainda mais ares de heróis.
Até logo Jack - foi minha ultima frase.
Adeus Helena - foi sua resposta. E apesar de ter sido a mesma resposta de Lionel, a dele causou-me uma leve pontada no coração.

domingo, 8 de maio de 2011

Pouco a pouco, a loucura.

"JJ e Lionel foram, então, mandados para base do exército a fim de receberem a devida preparação, e eu fiquei - meio deprimida, meio revoltada - à procura de algo que afastasse meus pensamentos daquele dia que eu rezava para que nunca chegasse: o da partida definitiva.
Há uma pessoa que ainda não mencionei - talvez por não ter encontrado o momento certo - Catherine era o nome dela, era a namorada de Lionel e minha melhor amiga. Cathy, como a chamávamos era um anjo em pessoa, dona de uma generosidade incansável, e infinitas vezes mais sensata e equilibrada do que eu.
Catherine aceitou com tamanha compreensão a ida de Lionel à Guerra que causou-me inveja, não se isolou em um quarto e, menos ainda, despejou lágrimas e xingamentos como eu fizera, apenas aceitou a decisão e guardou seu sofrimento para si. Foi Catherine quem esteve ao meu lado nos momentos mais difíceis e que me impediu, por várias vezes, de cometer um desatino.
É uma pena que nossa amizade tenha se perdido pelo caminho, e se perdido por um motivo que eu simplesmente não consigo me lembrar, é como se num momento existisse Catherine e em outro, não existisse mais. A dizer a verdade, é assim com quase todos meus entes queridos, como se houvessem apagado suas vidas de minha mente, restando-me apenas um pedaço delas. Não sei o que houve com Lionel, nem com Cathy ou com papai...Oh Deus, nem mesmo de seus rostos consigo me lembrar!.."
Neste momento cai em um desespero tão grande que Matthew se viu obrigado a sair de sua posição costumeira de ouvinte e tentar me acalmar. Ele segurou-me com uma das mãos e com a outra acariciou-me os cabelos, dizendo-me que me acalmasse e que eu não estava sozinha.
Bastou essa frase - eu não estava sozinha- para me trazer de volta à realidade e retomar a história, mesmo que naquele momento eu mesma começasse a duvidar de minha sanidade.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Base Militar, 10 de julho de 1968

Helena,

Peço encarecidamente que me perdoe pela ausência de cartas e pela angústia que devo tê-la deixado sem notícias, nem minhas nem de J.J. Mas lhe peço também que mande-me, assim que possível, uma foto de Catherine pois perdi a minha em algum acampamento.
Ah , irmãzinha, tenho fé em Nosso Senhor que não se demora o findar dessa guerra que nos perturba e causa diariamente a morte de tantos inocentes. Temo principalmente pelas crianças. As pobres mal entendem o que se passa; existem ainda aqueles que mal deixaram o seio materna e já se vêm meio a sangue.
Fiquei mais tranquilo por saber que papai conseguiu negociar sua liberdade. Sei que lhe causa revolta essa dependência, mas saiba que se tivesse me escutado, Helena, não necessitaria de passar por isso.
Sim, querida, J.J se recupera bem e manda lembranças acaloradas. Não perca suas noites a imaginar se a Guerra, além de arruinar a todos, também arruinará seu relacionamento com ele. Digo verdadeiramente que não acredito nisso.
Rezo todas as noites, mesmo de arma em punho, pela nossa família. E creio que Deus está a iluminar e proteger a todos nós. Amanhã antes mesmo de raiar o sol , partiremos em direção ao centro do país. Aconteceu mudança nos planos com a morte de nosso capitão na emboscada que os inimigos armaram na última operação. Estou com medo, Helena. J.J diz que não mas não o acredito. Peço que ore por nós e por nossas almas. Diga a Catherine que a amo e que estou a pensar nela todas as vezes que ela também pensa em mim. Diga também que ela olhe para a Lua todas as noites, pois eu também estarei olhando e isso faz parecer que a distâncias se encurtam.

Seu irmão,
Dança Com Lobos.

domingo, 17 de abril de 2011

A decisão de Lionel e JJ

"Papai pediu que eu me sentasse, obedeci tomada pela desconfiança, e Lionel revelou-me, enfim, o que, talvez, bem no fundo do meu coração, eu já soubesse: ele e JJ haviam se alistado e lutariam na guerra do Vietnã.
Eu não conseguiria descrever o impacto daquela noticia, o chão sumiu debaixo dos meus pés, lembro-me de ter ficado alguns minutos em silêncio e, quando voltei a mim, passei a caminhar de um lado para o outro, soltando frases desconexas, tentando entender o por quê.
JJ e Lionel tentaram me explicar mas não permiti, não havia nada que pudessem me dizer, eu simplesmente não compreendia. Lutar numa guerra sem causa?Arriscar a vida por um país que abrigava tantas injustiças e preconceitos, características estas que tanto revoltavam aqueles dois corações? Nada disso parecia fazer sentido.
Como eu poderia aceitar ser abandonada por duas das pessoas que eu mais amava na vida?Como eu poderia carregar todos os dias a angústia de não saber se voltariam vivos? Não, aquilo era demais para mim.
Disse tudo isso a eles e olhei para meu pai, à procura de apoio, mas este parecia prostrado pela noticia, o abandono do filho talvez reacendesse as lembranças do abandono da esposa, deixando-o sem saber como se portar. Além disso, meu pai tinha uma capacidade imensa de compreensão e benevolência, conhecia muito bem o coração de Lionel e não ousaria impedir que lutasse pelos seus ideais.
Mas eu não era como meu pai, não compreendia e não queria compreender. Tranquei-me em meu quarto durante uma semana, nem as súplicas de Lionel, nem as juras de amor de JJ foram suficientes para me reestabelecer do sofrimento. Quando, finalmente, sai do quarto encontrei JJ sentado na sala, lancei-me em seus braços e chorei, desfazendo, enfim, o nó que há uma semana sentia em minha garganta".
Ao terminar minha narração, percebi que Matthew estava estranhamente emocionado .Minha história abalara aquele homem misterioso, que tanto relutava em falar sobre sua vida, não sei se já disse isso, mas Matthew era muito reservado em suas visitas, quase não falava de si, parecia até um anjo que vinha à Terra apenas para me confortar. De qualquer forma, naquele dia ele me pareceu abalado, saiu sem se despedir, apenas lançando-me um olhar de ternura.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Território Vietnamita, 03 de julho de 1968


Heleninha,
Fiquei atônito com tudo o que me disse na última carta. Então continua com seus protestos e com isso foi presa? Ora Helena, perdeu o senso? Já lhe expliquei inúmeras vezes através destes mesmos garranchos a que leve esses seus atos e o que eles representam para mim. Sim, de fato que estou no inferno, mas está a por em dúvida a razão pela qual estou queimando ( e J.J também, lembre-se!).
Enfim, poupei J. de sua carta para que ele não tenha desgostos enquanto se recupera do ferimento . Inclusive, ele vem se mostrando cada vez mais nacionalista e isso preocupa-me . Coloque J.J a frente de um grupo de pessoas e ele instaurará um sistema autocrático!
Peço, Helena, que enquanto eu não retornar que se afaste de suas ideias pacifistas e que não se junte à rebeldia de sua geração. Não quero que se machuque por essa guerra que você mesma tanto diz não possuir sentido algum. E peço outra coisa: pare de escrever tantas cartas seguidas a J.J, o sistema está precário e todos são desconfiados.
Cuide-se e esqueça a guerra.

Seu irmão,
Dança Com Lobos.

domingo, 3 de abril de 2011

Apesar da aparente claridade, ainda havia escuridão.

Já não sabia há quanto tempo eu estava naquele hospício, talvez dias, talvez semanas, mas o fato é que depois de tantas consultas e remédios já me deixavam passear pela clínica.
Quem tivesse me conhecido antes de ser internada acharia estranho me ver caminhando de dia, pois eu nunca saía de meu quarto durante o dia, gostava apenas da escuridão - esta, sim,combinava com a minha vida - mas a claridade já não me incomodava como antigamente e chegava quase a me fazer bem. Mas nem tudo era luz, a falta de notícias me angustiava, teria ele me abandonado de novo? Não, uma segunda vez eu não suportaria. Parecia que ninguém queria me dizer o que estava acontecendo, nem Matthew colaborava, apenas se sentava e esperava, e eu, sem alternativas, continuava minha história:
"Os meses se passavam e JJ e eu vivíamos numa relação completamente inconstante, brigávamos o tempo todo, nos amávamos o tempo todo, acho que nunca um casal teve tantas vezes seu relacionamento rompido e reatado. Eu sentia tudo muito intensamente, ele era mais impassível, controlador e ambos não conseguíamos nos compreender, ainda assim, todas as vezes que terminávamos, eu corria atrás dele, pedia perdão e tudo recomeçava...até o dia em que nossa relação instável foi obrigada a se interromper.
Lembra-se de que JJ e Lionel estavam com uma ideia misteriosa, nao é? Pois bem, essa ideia tomou corpo e transformou-se numa decisão, a qual, quando eu vim a saber do que se tratava, já estava tomada. Foi num dia em que cheguei em casa e encontrei os dois amigos reunidos com meu pai. Papai mexia nervosamente nos cabelos, como sempre fazia quando recebia uma noticia ruim.E de fato era."

domingo, 20 de março de 2011

Influências

"No mesmo ano em que conheci JJ, em 1965, a Guerra do Vietnã começou. Não preciso dizer o quanto essa guerra marcou a vida de muitas pessoas - você também deve ter presenciado tudo- mas o que você não sabe é a influência que ela teve sobre minha vida.
JJ e eu constantemente nos encontrávamos, em lanchonetes, bailes e mesmo em minha casa, todas as vezes que nos víamos ele lançava sobre mim aquele olhar perscrutador, como se tentasse ler meus pensamentos, já que eu não tinha coragem para dizê-los. Quem tomou a primeira atitude foi, obviamente, ele. Estávamos no baile de formatura dele e Lionel, a banda - daquelas em que os integrantes usavam ternos coloridos e que hoje, infelizmente não existem mais - tocava uma canção do The Temptations. JJ arrastou-me para a pista e enquanto dançávamos - comigo completamente tomada pelo nervosismo - ele me disse o que sentia e pediu-me uma resposta. Disse essa última frase quase que com autoridade, o que arrancou-me a confissão: Sim, eu também sentia o mesmo.
Parecia que minha vida havia, finalmente, tomado sentido, tudo o que eu fazia e pensava relacionava-se a JJ, eu não conseguia entender, e ainda não consigo, como uma única pessoa podia exercer tanta influência sobre mim, mas não importava...Por que balança a cabeça, Matthew? Ah claro!Lionel também pensava assim, achava que eu não tinha mais vida própria, mas eu apenas havia mudado meu jeito de viver, havia encontrado uma razão para isso...mas eu não culpava Lionel e também não culpo você, nem eu mesma consigo entender, ao certo, meus sentimentos...
Com o tempo uma nova ideia passou a dividir espaço comigo na vida de JJ, e ela parecia morar também nos pensamentos de Lionel. Os dois amigos passavam horas conversando em segredo, tomando o cuidado de me manter afastada do mistério. Aquela situação inquietava-me cada vez mais, tratando-se de Lionel e JJ - daquelas duas almas idealistas, prontas para liderar uma revolução - só poderia partir uma ideia perigosa.
E, enquanto se seguia o mistério, a guerra avançava no Vietnã. Entrávamos no ano de 1966."

terça-feira, 8 de março de 2011

JJ

"Já contava quinze anos quando o conheci, Jack era o nome dele - ou JJ para os amigos - eu estava em casa, ao piano, embalada numa versão frustrada de Chopin - confesso que nunca fui muito boa nisso - quando meu irmão e Jack entraram na sala. No momento não vi mais que outro daqueles amigos de meu irmão - garotos débeis que nem ao menos sabiam o que faziam no mundo - mas algo nele prendeu-me a atenção, talvez fosse sua beleza estonteante ou aqueles olhos, altivos, questionadores, ou mesmo a postura firme, como quem vê o mundo do alto. O que quer que fosse, havia me fascinado.
Nos dias que sucederam fiz de tudo para que os assuntos entre mim e Lionel chegassem ao nome de Jack, e dessa forma, Lionel me contava tudo o que eu precisava saber sobre ele. Falava do amigo com verdadeira adoração, possuíam muito em comum, os ideais, a vontade inexplicável de mudar o mundo...e pensar que foi esse espírito revolucionário que pôs meu mundo abaixo...
Mas falemos disso mais tarde, por ora basta saber que assim como entre Lionel e Jack crescia uma amizade indestrutível, entre nós dois também nascia um sentimento que seria tão forte que ..." E a enfermeira entrou no quarto encerrando o horário da visita, meu ouvinte - Matthew era o nome dele, segundo me disse - despediu-se e saiu.
Como vêem, apesar da minha "crise" do outro dia, Matthew voltou a visitar-me. Quando olhava para ele via algo tão familiar que chegava a pensar...não, isso sería loucura e , ao contrário do que parecia, eu não estava louca.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Vietnã, 05 de maio de 1968

Texto 1 e 2 e 3


Estimada,


Sou eu que lhe pergunto: seria isso a Guerra? A guerra que todos falam, e repugnam e muitas vezes apoiam? Eu digo a Guerra com armas, soldados camuflados - como eu - pessoas mortas nas esquinas, mulheres se prostituindo em meio ao terror, choros...Apesar de imagem cruel e perturbadora, a imagem que eu não desejo que meu pior inimigo veja, eu não acho que isso seja a guerra.
Quem define guerra dessa maneira são aqueles que nunca pegram uma arma e apontaram às cegas a qualquer individuo que um mero ser humano lhe disse para matar. Para mim, não é isso. Guerra. War. Krieg.Guerre.La Guerra. 戦争.... em todas as línguas, há somente UM significado : a minha definição é a do terror psicológico. A verdadeira guerra é aquela que travamos com nós mesmos enquanto nossas mãos estão a escorrer sangue. E sangue alheio. Quem define guerra da primeira maneira é quem nunca viu sua roupa manchada em vermelho.
Então calem-se todos que não viram seus amigos enlouquecendo a seu lado, pelo extermínio de uma nação . Calem-se aqueles que não tiveram que "honrar" um pedaço de pano e nem assim ter o apoio de seus prórpios compatriotas.
Eu já disse milhares de vezes que a guerra é o Inferno. Não acredito mais, irmã, em Céu e Inferno pos mortem. Esses dois lados nós vivemos aqui mesmo. Isso eu posso afirmar.
Perturbado,
Dança Com Lobos.

P.S: prometo que após retornar ao meu juízo, esplico-lhe a origem de meu apelido.



domingo, 20 de fevereiro de 2011

"Vê como estão sempre me abandonando?"

Ele me olhava com certa insegurança, como se não soubesse o que dizer. Sentado ao meu lado, aquele meu estranho - agora ouvinte - parecia torcer para que a primeira palavra viesse de mim.
"Eu nunca contei minha história a ninguém, mas posso lhe contar, se assim o quiser". Um simples gesto de cabeça indicou-me que sim.
"Pois bem, eu nasci aqui mesmo, em Willmington, em 1950...Ah sim, como eram bons aqueles tempos!...Fazia parte de uma família muito rica e tinha apenas um irmão - alguns anos mais velho que eu - seu nome era Lionel...Ah meu querido, por que será que me abandonou? Trocávamos tantas cartas e hoje, nada!...Quando criança eu tinha muito medo da chuva, então Lionel segurava em minhas mãos e me acalmava. Sempre foi muito corajoso, o meu irmão, ele dizia que um dia seria um herói."
O ouvinte mexeu-se incomodado na cadeira.
"Meu pai passou a maior parte da vida trabalhando, era banqueiro, então - como se para compensar a ausência - nas horas livres, dedicava-se a fazer todas as vontades dos filhos. Sabe que eu nuca visitei o túmulo de meu pai? Não tive coragem de ir ao enterro, nem ao menos sei onde esta enterrado! Na verdade, eu não sei nada do mundo há tempos. Mas essa história eu lhe contarei num outro dia.
Já lhe falei de minha mãe, não é? não? Ah minha mãe era dona de uma beleza singular, era capaz de passar horas em frente ao toucador, se admirando. Era muito afeita ao luxo, a riqueza e tinha pouquíssima paciência com os filhos. Eu e Lionel, na verdade, crescemos criados pelos empregados...Certo dia ela simplesmente desapareceu, sim, arrumou suas coisas e foi embora, nos abandonou...Vê como as pessoas estão sempre me abandonando? Mas eu não a culpo- ela nunca pareceu feliz, a vida de dona de casa era pouco para ela e talvez não amasse meu pai- mas eu não a culpo porque de infelicidade eu entendo bem, só eu sei o quanto sofri quando pensei que ele tivesse morrido...Mas me enganaram, ele continua vivo e sempre me visita, a última vez foi na véspera de minha vinda para cá...Ah, meu Deus, será que ele sabe onde estou?Preciso vê-lo, explicar tudo! Por favor me leva pra casa!Me tira daqui!Não...não me deixe, me ajude! Não vá embora...não!"
Mas meus gritos e meu choro espantaram a única pessoa que podería comprovar minha sanidade. Fiquei, então, sozinha com meus devaneios, assustada com minha própria atitude desesperada.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Vietnã, 17 de abril de 1968

Texto 1 e 2


Estimada Helena,

Peço-lhe perdão pela eloquência de minha última carta. Não queria deixá-la com o coração transpassado de agonia. O caso é que precisava expressar-me, uma vez que começo a desconfiar da capacidade de meu psicológico em permanecer neste lugar...
Antes que me esqueça, você sabe, querida, que o correio militar não é dos mais eficientes; por isso cedo aqui um espaço em minha carta onde lhe direi algumas palavras de J.J : está a me dizer que, assim que retornar à América, enfim a levará, como prometido, a viajar pelo país a contemplar a estátua da Liberdade. Passarão, então, um dia em Nova York, assim como o fizera Gene Kelly, Sinatra e Betty Garrett! Ele diz que dançarão ao som de Ben E. King sob um luar magnífico, no mesmo local de sempre...fico a imaginar que local seria esse.
Helena, continua com suas revoluções anti-guerra? Responda-me sinceramente, por favor.
Despeço-me aqui, o dever me chama. Que Nosso Senhor a abençõe, aos nossos pais, a mim e a J.J.

Ternamente.
Dança com Lobos.

Sem P.Ss hoje.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Surgem dois estranhos e um raio me cai na cabeça.

Quando abri os olhos, novamente, já era noite. "Ah, agora sim". Apesar da escuridão, pude reconhecer o mesmo quarto, continuava, portanto, viva. O relógio marcava dez horas e aquilo me fez pensar que talvez ele tivesse ido me visitar em meu quarto e não me encontrou. "O que teria pensado?". Levantei-me e pus-me a caminhar pelo aposento, divagando.
Acordei na manhã seguinte com a mesma luz em meu rosto e percebi-me sentada num canto do cômodo, como havia parado lá nem mesma eu sabia. Em seguida surgiram dois homens, um deles, para não fugir à regra, vestido de branco. Este pegou-me gentilmente no braço levando-me de volta para cama. O outro sorria para mim como se já me conhecesse.
Então veio a revelação para todo o mistério que me cercava: o homem de branco era nada menos que um médico e estava ali para cuidar de mim. "Como! Minha saúde está ótima!", mas minha mente não estava, ao que parece eu estava louca. Sim, louca! E por que não? Obviamente ele não usou estas palavras e sim outras que a delicadeza da situação exigia. Eu me encontrava, portanto, num manicômio, ou numa clínica psiquiátrica, como preferirem, o fato é que aquela notícia atingiu-me como um raio e, desesperada, passei a gritar com todas as minhas forças. O outro desconhecido tentava me acalmar.
"Oh, chama-me de Helena? Pois então conhece-me? Mas eu não o conheço! Afaste-se de mim!"
Não sei como, nem porquê, mas após tanta gritaria senti-me atordoada e sonolenta. Meus dois estranhos despejaram toneladas de palavras consoladoras, das quais não compreendi nenhuma.
O medico explicou-me, quando me viu mais calma, que o homem que o acompanhava - não lembro-me se mencionou o nome - estava ali para fazer-me companhia, quando eu precisasse de alguém para conversar. O mencionado pegou-me, então, nas mãos, fitando-me com um ar insuportável de compaixão, mas que ao mesmo tempo me confortava.
A ideia não era má, talvez se eu lhe contasse minha história, com os detalhes tão exatos que guardei em meu coração, percebessem, por fim, que eu não era louca.
Então o homem pegou-me nas mãos fintando-me com...mas isso já lhes contei, certo? Ou não?...Não importa, continuemos a história.

Vietnã, 20 de maio de 1968

Texto 1


Helena,


Para o inferno com a guerra! E isso é quase um pleonasmo! Tinha razão, minha irmã. Como sempre soube que tivera. Odeio a guerra assim como odeio a mim mesmo por fazê-la possível! Estou farto de homens sedentos de sangue, de mulheres à deriva, jogadas à sarjeta dessa cidadezinha mais pútrida que a prórpia situação. Desprezo e cuspo em cima de qualquer flâmula que incite à guerra pela guerra. O ódio pelo ódio... mas é esse mesmo ódio que me toma agora! Ora, que espécie de animais somos?
Deixe que eu respondo: somos os que tornam possível a concretização da teoria o Homem é o Lobo do Homem. Deixamos que Hobbes esteja certo! Aqui, nesse purgatório, eu vejo, eu posso ver! Somos o homem que mata o homem, por pura afeição a desgraça. Somos os que encontram satisfação sexual no sofrimento alheio. Somos o lixo do mundo!
Mas ao mesmo tempo, irmã - e ai de mim! - somos os que amam! Como seria isso possível, Deus meu? A mesma vil carcaça possuir também uma alma capaz de amar! E como ama...
Não, não me chame de simpatizador de Schopenhauer ou pseudointelectual do existencialismo... pois sei que o fará! Apenas estou farto! Farto de despertar todas as manhãs em uma cama asquerosa e encarar a morte a cada esquina. A Morte em todas as suas formas, Helena!
Ontem mesmo; equanto tomava meu posto, uma garotinha de não mais de oito anos aproximou-se de mim com seu único braço, e a noite peguei-me a buscar em minha mente sinais de que talvez eu pudesse ser seu mutilador...O que seria isso senão o Inferno, minha irmã? Vejo no rosto de meus comandantes o prório Diabo e me convenço.

Em meio a essa carta cinzenta, espero de coração que todos estejam bem em casa.


Do seu irmão que lhe ama,
Dança Com Lobos.


P.S: caso uma das cartas não chegue à América, eu e J.J mandamos a carta de cada um e a do outro.