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segunda-feira, 25 de abril de 2011

The Wall

Ou O Conservadorismo


“A tradição de todas as gerações
mortas oprime como um
 pesadelo o cérebro dos vivos.”

Karl Marx

        
A vida de um homem é uma série de conflitos com o que já está posto. Tudo lhe é externamente determinado e, ainda assim, ele é um agente no processo. Esse processo é, no limite da lógica, completamente inegável. As externalidades são tantas e de tantos tipos que o caráter conflituoso do processo é, numa cosmovisão materialista, absolutamente evidente.

O que nos resta é observar o que há de genérico e humano nesse processo, o que vemos nele que está presente numa infinidade de outros processos, em nossas vidas, em nós, no próprio processo que somos: O conflito em si, o conflito entre o ser que, procurando exercer sua vontade, colide contra o status quo, contra o establishment, contra tudo que está e quer permanecer.

A História se dá dessa maneira. As condições materiais novas enfrentam longas batalhas contra as velhas consciências, obsoletas, que procuram manter em pé um castelo de cartas em meio a uma ventania. Mas, em certa escala, é fácil afirmar tais conflitos nos processos sociais, nas amplas esferas da vida. Mas e quando o desafio moderno, científico, e filosófico da generalização se faz presente? Aplicar a mesma lógica às mínimas ações, às relações interpessoais, enfim, a tudo que é particular: essa é uma obrigação da coerência.

Não mais o conservadorismo de uma sociedade, de uma classe, mas sim o conservadorismo de um indivíduo. Não mais o conservadorismo sobre a moral, sobre a religião, sobre a política, mas sim o conservadorismo para a vida particular como a vivemos, para as relações pessoais tais quais as temos ou deixamos de ter.

Muitas vezes nos revoltamos ao ver uma manifestação de conservadorismo social, mas quantas vezes nos enfurecemos diante do conservadorismo individual? Não nos revoltamos, simplesmente. E isso se explica pelo fato de que na esfera individual ainda não aprendemos a enxergar tal conservadorismo e chamá-lo pelo nome.

É evidente quando uma idéia revolucionária se contrapõe a uma idéia reacionária e ambas destilam o ódio mútuo dia após dia. Mas como enxergar o momento em que nossas vidas e nossas relações se tornam obsoletas? Como saber quando nossa consciência está atrasada e estamos, de fato, andando contra a roda da história de nossas vidas? Quando estamos, enfim, somente nos deixando viver e não vivendo, perdendo tempo, perdendo chances? Quem souber enxergar esse momento precisará, ainda, de uma dose de coragem que poucos têm.

Falta, por fim, afirmar a freqüência com que tais momentos se dão. Olhando para o passado todos são capazes de encontrar ações que demoraram mais do que deviam, situações que sobreviveram por puro conservadorismo, falta de atitude. Retrocessos por falta de visão. Covardia.

E, além do mais, quantas vezes não podemos sentir a força do passado a nos infernizar? Quantos dos nossos sonhos são frustrados pela simples objeção de que as coisas estão estabilizadas de uma maneira e não mudarão por bem? Parece, então, que perdemos o momento. Que chegamos tarde demais no mundo, tarde demais em determinado círculo social, que conhecemos aquela pessoa tarde demais. À sombra do mundo errado, murmuramos então um protesto tímido: ‘Se tivesse chegado antes, venceria.’ A tal tímido protesto murmurado, proclamo em alto e bom som um princípio revolucionário: Nunca é tarde demais para tomar as rédeas da própria história.

quinta-feira, 31 de março de 2011

Em Claro

As noites se passam em claro
se os dias se passam em vão.
E que desgraça, os dias em claro!
E noites de solidão...

quarta-feira, 2 de março de 2011

205/55 R16

Quando o grupo foi formado, me lembro bem, éramos cinco. Por que cinco, se só quatro desempenhariam todas as funções? Tal era a pergunta de todos nós. Mas, inertes como sempre fomos, esperamos o juízo dos nossos superiores.

Pouco antes de iniciarmos as atividades, fomos apresentados às nossas funções. Fui o último da fila e notei que não parecia sobrar nenhuma função para mim. Estávamos certos afinal: apenas quatro bastariam.

Acaso algum de vocês já foi considerado desnecessário? Supérfluo? Maior humilhação não há. É preferível ser considerado nocivo que desnecessário. É melhor ser odiado que ser desprezado.

Mas enfim, eis que me colocaram de lado e então entendi: Eu, em segundo plano, estava ali para esperar a minha vez. A minha vez para que? Talvez para algo maior? Eu me perdia nesses pensamentos e apenas a minha inércia me mantinha ali, quieto, esperando.

Era até engraçado. De tempos em tempos, vinham e se certificavam de que eu mantinha a aptidão para os serviços. Nesses dias, eu pensava que estava chegando a minha vez. Mas nunca chegava.

Passaram-se alguns anos e aos poucos perdia as esperanças. Não havia nada de grande me esperando. Perguntava-me: Porque justo eu? Eu era igual aos outros, tão capaz quanto eles! Poderia fazer tudo que eles faziam, e com a mesma eficiência! Eu havia sido injustiçado, e isso me deixou amargurado como o diabo.

A amargura me trazia terríveis pensamentos, inveja, desejo de vingança. E isso não foi de todo ruim: Percebi, nesses devaneios, que algo poderia me colocar no meu lugar de direto. Era necessário que apenas um dos outros quatro se mostrasse incapaz e eu poderia provar a todos que era tão bom quanto eles! E nesse dia todos saberiam o erro que fora me manter lá, naquele maldito limbo!

Então eu esperei. E esperei muito. Você já esperou muito por algo, meu amigo? A gente se cansa, deixa de ver graça na vida. Se é que existe alguma graça pra ser vista... Bom, o caso é que depois de uma longa espera eu não queria mais nada: Queria apenas que tudo fosse pro inferno. Eu era só ódio, maus dias aqueles...

Nem me lembro direito em que dia aconteceu. Um deles fracassou, não conseguiu superar um pequeno obstáculo. Certamente os vários anos o haviam desgastado. Em todo caso, ele falhou, furou, como disse nosso superior naqueles dias.

Eis que então fui considerado necessário: a espera havia chegado ao fim. Com que prazer enorme eu diria: “Não! Vocês não podem me desprezar e então decidirem que precisam de mim! Se virem sem mim agora, pago pra ver!” Mas não disse nada e fui colocado obedientemente no lugar do meu fracassado companheiro. Afinal de contas, o que pode um simples pneu fazer?

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Resposta final à Dança Com Lobos.

Devo dizer, para não deixar passar, que o seu texto original não se dirigia claramente tão só ao casamento. Uma indeterminação que julgo agora resolvida.


Indeterminações! É isso que sobra nas cosmovisões idealistas, que descem da mente ao mundo, do céu a terra. Indeterminado é, por exemplo, o termo “parâmetros amorosos”. Não há nada de substancial nesse termo, nenhuma significação objetiva. É um termo feito para agradar a gregos e troianos e eu mesmo poderia aceitá-lo. Basta que eu o coloque a meu serviço, a serviço dos meus parâmetros, dos meus amores.

Quanto à castidade, reafirmo a minha crítica a ela enquanto um valor. É um valor do não à vida, do não à realidade. Quando você escreve “amor casto”, eu leio “amor preso”, “amor reprimido”, “amor amputado”. Claro, novamente o termo “casto” é sujeito às inúmeras interpretações que fazem com que haja discordantes concordando. Casto pode significar “fiel”. Pode significar “cauteloso” ou “prudente”. Se assim for, estaríamos de acordo. Mas como saber?

Reitero a minha afirmação de que o amor emana do plano físico. Ao ver a “intromissão” do plano físico como algo ruim, estão invertidas as relações. Como já falei anteriormente, a sua lógica desce do céu à terra. A minha ascende da terra ao céu.

Noto que, na sua concepção, o fato de “satisfazer-se espiritualmente apenas” é um ato de força. Discordo, obviamente, visto que o “apenas” compreende uma limitação. E limites são, em última análise, sinais de fraqueza.

Tais são as confusões de linguagem trazidas pelos idealismos especulativos. A covardia é chamada de coragem, a fraqueza é sinal de força. Assim como, já nos primórdios, os fracos se denominariam ‘os bons’ e chamariam os fortes de ‘os maus’. As escolhas de termos são escolhas políticas, campo de disputa.

Além dessa confusão em termos que torna o debate formal bastante complicado, concluí algo que remete a nossa discussão a questões muito mais fundamentais. A nossa discordância, revelada nessa discussão acerca do amor (Notei que você escreve Amor, com letra maiúscula, assim como o personifica na última frase de sua tréplica), tem raízes nos princípios do pensamento. Discordamos em nossa cosmovisão, em nossa visão de mundo. Em termos filosóficos, estamos debatendo aqui cada um com uma Weltanschauung, claramente opostas.

Não estou fazendo um discurso conciliador, muito pelo contrário. Estou mostrando que a profundidade do nosso conflito é maior do que apenas essa discussão e que ele não será resolvido por ela.

Tomo essa discussão sobre o amor como encerrada por insuficiência e me dou por satisfeito ao esclarecer os conflitos, mais profundos.

Conclusivamente,

Iral Levirc.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Quando as Flores não Desabrocham

Uma réplica à Dança Com Lobos referindo-me ao seu belo texto Quando os Diamantes brutos devem permanecer assim”.

A tese de tal texto se estrutura da seguinte forma: a autora elucida uma teoria própria, a da eternidade amorosa quando o plano físico não se intromete. Basicamente, afirma que um amor não-realizado, isto é, meramente espiritual, eterniza-se ao ser abortado do processo de realizar-se. Em contrapartida, um amor realizado, isto é, material, deve seguir o rumo dos amores vulgares, dos amores vãos: perder o vigor inicial e, então, acabar. Conclui-se disso uma relativa superioridade do amor não-realizado, espiritual, sobre o amor realizado, material.

Penso que tal lógica é demasiado idealista e que não se mostra fiel à realidade. Começando pela suposta intromissão do “plano físico”. Ora, devemos então acreditar que o amor surge numa esfera espiritual (num Mundo das Idéias platônico!) e que então o “plano físico” se intromete? Pois eu inverto tal relação. O amor surge no “plano físico”; o amor é uma manifestação própria do “plano físico”, é natural. A nossa cultura, de forma verdadeiramente admirável, coloca sobre esse fenômeno natural toda uma carga ideológica, todo um mundo espiritual a posteriori, toda uma essência criada posteriormente. Essa construção da nossa cultura nos leva a enxergar a coisa de modo diverso: acreditamos que essa carga cultural colocada sobre o amor é, na verdade, a origem do amor. Isso é um erro. E tal é o erro da lógica por trás da teoria da eternidade amorosa quando o plano físico não se intromete.

Cito, em meu favor, Jean-Paul Sartre em “O Existencialismo é um Humanismo”:

Ora, na realidade, para o existencialista, não há amor diferente daquele que se constrói; não há possibilidade de amor senão a que se manifesta no amor, não há gênio senão o que se exprime nas obras de arte; o gênio de Proust é a totalidade das obras de Proust; o gênio de Racine é a série das suas tragédias, e fora disso não há nada; porque atribuir a Racine a possibilidade de escrever uma nova tragédia, já que precisamente ele não a escreveu? Um homem embrenha-se na sua vida, desenha o seu retrato, e para lá desse retrato não há nada. Evidentemente, esse pensamento pode parecer duro para alguém que não tenha vencido na vida. Mas, por outro lado, ele dispõe as pessoas à compreensão de que só conta a realidade, que os sonhos, as expectativas, as esperanças apenas permitem definir o homem como sonho malogrado, como esperança abortada, como expectativa inútil.
[Negritos, evidentemente, meus.]

Devo afirmar, indo mais longe, que a disposição para que os amores permaneçam não-realizados revela um medo da realidade, um ódio à vida tal qual ela é naturalmente. A glória do amor não-realizado é a glória da vida não vivida, do prazer não experimentado, do conhecimento não adquirido, do poder não conquistado. É, em suma, o mito da castidade enquanto algo superior. A castidade: esse discurso de fracos para fracos, jamais proferido pelos fortes e pelos fortes ignorado.

O texto traz, ainda, dois exemplos. “Romeu e Julieta” e “Jack e Rose”, como amores não-realizados e eternos. Esses amores permanecem eternos na literatura. A vida não é vivida em literatura, por mais que sejam ambas belíssimas e relacionadas. Se Romeu e Julieta tivessem desfrutado do seu amor, seriam felizes. E, mesmo que tal amor acabasse, prefeririam isso à morte na frustração de um beijo frio, morto. A história não seria bela de se contar, mas seria mais bela de se viver. O mesmo vale para Jack e Rose, considerando o agravante de que Rose viveu décadas em dolorosas saudades. São belas histórias. Na vida dos outros.

A gota d’água que me fez escrever essa réplica é a última frase do texto, um ultraje à natureza: “...como o desejo de toda mãe é ter seus filhos eternamente bebês.” Em que mãe doente se inspira essa mãe genérica, essa toda mãe? Serão as mães tão perversas? Uma mãe saudável para um mundo saudável não pode ter tal desejo repugnante. Deve desejar que seus filhos cresçam fortes, saudáveis, plenos. Que se tornem belos jovens e nobres adultos. Que realizem a sua vida completamente. Não é admissível que uma mãe possa desejar que seu filho não viva a vida que lhe está reservada. O amor de mãe, possivelmente o maior de todos os amores, não permitiria tamanho egoísmo.

Tratei suficientemente de cada ponto e, portanto, encerro (abruptamente) aqui. Peço, todavia, frieza, frieza ao ler esse meu texto que, por respeito, fiz questão de livrar das meias palavras e dos rodeios: fui direto aos pontos, fui reto em minhas afirmações.

Atenciosamente,

Iral Levirc.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Ecce Homo

Um gosto especial pelo conhecimento e, portanto, um gosto especial pelas definições é uma característica que eu destacaria em mim. Amo poder encher a boca e dizer: Verdade! Ou então cerrar os punhos e vociferar: Mentira! Amor estranho, não nego. Mas isso não o diminui, é um amor meu e faço questão de defendê-lo. Minhas definições nunca me traíram. É verdade que me falharam algumas vezes, foram derrotadas, superadas, suplantadas. Mas me são fiéis e não me abandonam senão quando morrem. Amo as definições e tenho dito. 

Mas a que prova esse meu amor foi posto quando me deram a tarefa de traçar nem que fosse um esboço de uma definição de mim! Talvez seja por isso que eu amo as definições, afinal. Imagino que não estou sujeito a elas, que sou livre e todo e resto e todos os outros, a quem eu traço definições, não o são. Sancta Simplicitas! Mas por meu amor às definições, sigo em frente. 

Sinto-me cheio, pesado. Sou um fardo para mim e não me canso de aumentar tal fardo. Às vezes, feito um Cristo caricato, sou ajudado em tal fardo por algumas pessoas. Não muitas. Não poucas, por outro lado, me são um peso (morto ou vivo) a mais. Sou saudosista, guardo amor pelo passado. Sou idealista, crio esperanças pelo futuro. Niilista em luta contra o niilismo. Romântico dado aos meus realismos. Dialética, meus caros, dialética. 

Temo queimar a mente ou gelar os corações de quem me lê, de quem me ouve. Mas as mentes frias e os corações quentes são meus convidados de honra, meus irmãos por natureza, meus camaradas de luta. Vamos juntos.

Atenciosamente, Iral Levirc. Ecce Homo.