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terça-feira, 10 de abril de 2012

Amiúde.

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Só queria sentar em uma cadeira no fim da tarde, em uma
varada qualquer, e ver o por do sol. Só queria escrever em frases simples todos
os sentimentos do mundo. E não há problema nenhuma em sermos apenas eu e meu
rock and roll. Sem rodeios, sem justificativas. Diretamente do coração.
Ninguém disse que seria fácil. Mas ninguém disse que seria
em pares. Até andaria de mãos dados por algumas milhas da mesma estrada, mas na
primeira curva eu não tentaria manter os dedos entrelaçados.
Diga-me que podemos seguir as primeiras estrelas da noite,
mas distantes, sozinhos, da forma mais poética. Dê-me uma gaita e eu tocarei
embaixo de uma árvore qualquer. De uma árvore que aceite minha solidão
escolhida e todos os meus milhões de amigos. Eu manterei dessa forma.
Diretamente do coração.
Então deixe que seja diretamente do coração. E não há outra
forma de ser senão a solitária. Pois não há nada como um silêncio que em si
mesmo não é nada mais que o eco do mundo. E não se escuta o eco do mundo com
mais alguém porque não se pode escutar o coração de outrem, não da forma mais verídica.
E por mais longe que eu vá, será sempre diretamente do
coração. Porque eu estarei só e deverei somente, e nada mais, que a minha
essência.
A casa está lotada e eu só tenho um violão em minhas mãos e
toda a poesia da vida solitária. Tocarei, então, diretamente do coração. Então me retribua, diretamente do coração.
Retribua com a sua distância do meu coração. Direto.

quarta-feira, 14 de março de 2012

Público

Não começou exatamente naquela tarde de maio. Agora que me recordo de
minhas visitas anteriores, convenço-me que já começara assim, aos poucos, cada
vez que eu ultrapassava a velha porteira do sítio. Começou sucintamente, com algumas conversas, talvez. Mas infelizmente,
começou.

Acontece que naquela mesma tarde de maio eu peguei o trem das sete horas
da manhã. A estação vazia, com alguns ecos escalando pelas paredes. Subi as
primeiras escadas escutando desgostosamente o barulho do meu sapatinho.
Presente do Natal passado. Não me lembro exatamente de quem...fora um Natal
barulhento, um Natal de bêbado, enfim. Mas eis que terminei o último degrau e
olhei os dois lados do corredor: chão encerado refletia um quase reflexo meu. O
zelador ainda encerava, teimosamente, uma marca no chão. Um barulhinho
agoniante saia do esfregão. Esfrega, esfrega.
Decidi pelo lado esquerdo,
igualmente encerado, para minha decepção. Encontrei o guichê das passagens,
tipicamente alto demais. Sujo demais. Público demais. A mulher me olhou por
cima dos óculos de bibliotecária, deixou claro sem dizer palavra que eu não
deveria estar ali; a Connie Francis ecoava um pouco distante enquanto eu não
falava nada.
-Uma passagem. Para as sete. O
trem.
Ela bufou e abriu uma gavetinha,
entregando-me um papelzinho. Bufou de novo quando paguei com uma nota de
cinquenta. Depois do troco, preferi não agradecer.
Fui esperar o trem. A estação
continuava vazia. Sentei-me em um banco de madeira e coloquei minha malinha aos
meus pés. Não levava muitas coisas. Seis e quarenta e sete. Já havia lido
metade dos nomes escrito com canivete -ou com chave- no assento, e relado sem
querer em um chiclete embaixo do banco, quando o trem apitou.
Peguei minha malinha e sentei ao
lado de um moço que dormia. Dormiu a viagem inteira. As quatro horas e meia.
Direto, sem se mexer. Ele tinha a pele branca e os cabelos pretos muito bem
repartidos. E ares de aristocrata.
Nunca mais o vi. Mas acredito que
ele continua dormindo. Ou acordou na última parada do trem.

Melodicamente

Quisera eu nascer compositor. E
das mesmas notas fazer sair um turbilhão de olhares. Se soubesse, comporia em
praça pública. Seria caricaturista de sentimentos a preço baixo. Se eu tivesse
nascido compositor comporia toda uma trilha para cada criança que visse, para
cada lágrima que caísse para cada poeta que amasse.
Se fosse eu compositor ficaria
surdo para ouvir da forma mais genuína cada nota. E se eu fosse tocaria pianos
invisíveis e de pianos invisíveis nasceriam pétalas de rosas.
Mas se eu não sou compositor,
quem me dera ter nascido um! Ter fingido ser um! Ser louco e acreditar que
sou...mas ai de mim pobre criança rica. Rica de nada, de espasmos nervosos por
não saber compor sequer palavras. Por não saber sequer do que se compõe seu
próprio eu.
Porque se tivesse nascido
compositor, comporia a mim mesmo. A começar pelo Lá e a terminar por qualquer sustenido. Porque se
tivesse nascido compositor, saberia que nasci para a lua, que nasci com alma e
que sou um motivo a mais para crer na existência de Deus.
Mas se eu o fosse, talvez não
admirasse tanto aqueles que são. Um artista nunca admite seu talento; e se
admite é porque o sente perder. Se eu fosse um compositor não quereria nada
além do que a satisfação de perceber a sincronia de cada nota escrita na
partitura ou nascida na tecla do piano.
Contudo não o sou. Não nasci
sendo e nem com o gene do aprender a ser. Escuto , então, na esperança de não
ser má ouvinte . Escuto na esperança que, de olhos fechados, entenderei os
sussurros baixinhos da letra falada em uma melodia sem voz. Porque alguém disse
uma vez que silenciando um pouco seu interior, é possível entender o interior
do compositor clássico.
Eis que fico com a tarefa de
ourives. E ai de mim pobre ourives, que tenta lapidar em suas próprias mãos o
ouro de uma sinfonia inteira!

Lese

Havia três campinas a céu aberto. Céu azulado e rosa feito
algodão doce. Nas três campinas nós relembrávamos nossa infância. E criávamos
tudo de novo. Tudo outra vez. Na campina nós dávamos as mãos e andávamos três
passos cada, juntos. Ainda me pergunto se não era o céu a campina, e o algodão,
nós mesmos.
Ainda me pergunto se nós não pisávamos no céu. Ou se
pisávamos dentro de nós mesmos. E também
ainda me lembro do silêncio acariciando cada pétala de cada flor, com cada grão
de pólen. E me pergunto se o silêncio não
era nossas mãos, nossos dedos pequenos, macios, infantis, ingênuos. Dedos que
nunca sentiram nada além de...flores?
E quando deitávamos, sentindo as cerdas da grama em cada
centímetro de pele, você com seu vestido de lese azul, ou era eu que vestia o
azul do seu vestido? E quando deitávamos na tarefa banal de ver estrelas, você
me perguntava qual era a banalidade nisso. Eu respondia com toda a sinceridade
do mundo que eu era criança, e ainda não conhecia a banalidade.
E não há nada de errado com isso. Mas se tivesse um piano de
cauda no meio de uma das nossas três campinas, nós nos sentaríamos e tocaríamos com aqueles mesmos dedos pouco
treinados alguma melodia de Beethoven. Não porque é Beethoven seu compositor
preferido, mas por ser Bach forte demais. E qualquer força maior rasgaria seu
vestido de lese azul, o nosso vestido de lese azul.
Mas era azul o céu aberto de algodão. E é azul tudo aquilo
que ecoa no universo: nossas notas no piano da campina, seu vestido de lese e a
minha nostalgia poética. Por que nunca vi seu vestido de lese azul, e nunca me
deitei em nenhuma das três campinas, e nunca toquei piano...e nunca ouvi Bach e
sequer sei quem é Beethoven. Sei apenas que no inverno faz frio e que em algum
momento verei estrelas nos olhos de alguém. E nesse momento saberei que vi sua
alma. E nesse momento saberei que vi uma alma, e poderei contar a todos os
poetas e a todos os filósofos que, sim, eu vi uma alma. E que ela era azul.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Cova.

Jackie: Um copo de tequila, por favor. Sem gelo.
Dietrich: Dois copos, estou tentando parar... Uma Coca com gelo e limão, por obséquio.
Astronauta: Blue Label duplo, por favor. On the rocks. Beber é inútil, logo... Eu bebo.
Jackie: O que seria do útil se não o estragarmos um pouco?
Dietrich: De nada serve o útil regulado, felicidade não se conhece limites... Perdoem o exagero, acho que.. Deixe! *cala-se com a Coca*
Astronauta: Admito as inutilidades. Elas são, no mínimo, poéticas... Pergunte às pessoas se elas gostam das inutilidades; elas dirão que não e eu as chamarei de hipócritas. E ser hipócrita é inútil.
Jackie: Astronauta, está muito filósofo hoje.  Ofereça um gole de Label à Dietrich, minha tequila é fraca. Quero ouví-lo de dentro, inútil, eu sei, mas o desconhecido me intriga.
Astronauta: Ora, ora, e não é que ele aceitou? Grande ideia, querida Jackie, grade ideia! *risos* Estou filósofo, por que os filósofos também são inúteis. Assim como a Coca do nosso amigo Dietrich. Largue isso, meu caro, faz mal para os ossos. *tira a Coca de Dietrich.
Dietrich: Eu... Eu agradeço, mas não agradeço. Vou precisar mais do que álcool para me abrir, mas gosto de vocês.
Jackie: *rápida olhada ao redor* Não vejo cirurgiões plásticos aqui, amigo. Não vejo nada além do álcool. Aliás, vejo, sim. Te vejo se escondendo na sombra da fumaça de meu cigarro.
Dietrich: É que já estou cansado de ver outros sendo discriminados por aí, aprendi, por sobrevivência, a me esconder.
Astronauta: Experimente charutos, Jackie, é mais sofisticado. Mas você mesmo se discrimina, meu velho, com seu silêncio bêbado.
Dietrich: CHEGA! A culpa é do horrível mundo em que vivemos. Não sou eu, Astronauta! A diferença, a homossexualidade, é apedrejada todos os dias. E não sou eu!

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

A respeito de um céu e de borboletas.

Olhei pela janela de minha casa essa tarde: uma lagarta estava instalada na parte de cima, se metamorfoseando. Casulo preso ao nada, curvado. Um útero em minha parede!
Queria pegar o casulo. Aninhá-lo. Dar de mamar. O bebê logo nascerá e eu não o verei mais.
Abri outra janela em minha casa e vi que o céu estava no chão. Perguntei-me quem o teria derrubado. Quem teria desparafusado as estrelas. Eu não ouvi barulho algum de baque.
Então eu fiquei pensando nos que estão perdidos. Seguirão que luz que os guiarão para casa?
Tentei levantá-lo. Recusou-se. Pensei em chamar Van Gogh para pintá-lo refletindo ao contrário. Nada que um pouco de tinta não resolvesse.
Não. Não porque, olhando bem, o céu parecia mais bonito visto de cima. Assim como o casulo parecia mais bonito enquanto casulo.
Eu disse para uma estrela cadente que eu a pegaria, a consertaria, e a levaria para morar comigo e com o casulo. Talvez ela pudesse morar dentro do casulo ( e se de dentro de casulos nascessem estrelas?).
Descobri que a estrela morrera há muito tempo. Que aquela era só a lembrança, que continua cintilando através dos anos.
Então resolvi deixar o céu no chão. Fechei a janela. Olhei para dentro e vi que os relógios andavam ao contrário. Percebi que o tempo estava se esgotando, ou antes, percebi que o tempo estava voltando. Soldados voltando da guerra antes de ir, pessoas voltavam a respirar antes mesmo de morrer.
Ai eu só pedi a Deus que ele deixasse as coisas como estavam. E que ele cuidasse do meu casulo.
Porque, assim como o céu, alguém me desparafusou e largou-me no chão; assim como o relógio, meu tempo andava de costas, e assim como o casulo, eu brotaria da velha carcaça e viraria borboleta. E, enquanto borboleta, eu seria livre.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Palavras esparsas.

Vontade louca de assitir a um músical. Seria capaz de cantar Memory, vestido de gato. De cima de um telhado. Vontade de prender entre os dedos a voz de uma cantora de ópera.
Nunca soube o que fazer com as coisas que gosto. Aguém disse em algum momento. Um passarinho canta lá fora, dando tudo o que seu pequeno pulmão permite, competindo com o tenor que eu escuto aqui dentro (coração?).
Se pianos fossem comestiveis, eu os comeria todos os dias, só para sentir suas notas músicais saindo de dentro de mim, através de minha - de minha!- boca.
Vontade louca de só ver pessoas que tenham algo a dizer. A casa em obras já está farta de tanto ser martelada, como um marido chato que fica a mumurar no ouvido de sua esposa, não o que deveria. Palavrões.
Exatamente como sentir-se nu, assim é estar entre dois pontos. A maior distância é a que está entre esses dois pontos. E acho que aí também se encontra a solidão. E antes que alguém diga, não há nada de errado com a solidão, ela é bela quando é sentida em sua plena companhia.
Niguém fica inspirado, a inspiração não acontece, a inspiração é. Existe e pode ser absorvida a qualquer momento, tanto quanto o oxigênio. Mas pelo Amor de seu deus! Olhe em volta: você quer inspiração e ei-la; qualquer coisa toma forma, porque nada existe por si só.
A poesia do mundo consiste em ser o mundo a prórpia poesia.
E você pode ser lindo na medida que quiser. Porque só um fútil não o veria. E ninguém precisa de fúteis.
A intolerância é tão pútrida que o prórpio intolerante começa a sentir em si um cheiro podre.
Então vista um vestido leve, com flores; calce um chinelo ou então não calce nada, deixe os cabelos soltos e cacheados ao natural. Deite na relva. Sinta as cerdas da grama. E espere que você mesma se interrompa.

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Juramento.

Eu juro que tomarei o universo em minhas mãos e o multiplicarei a milésima potência.

Juro também, que seja solenemente, que seguirei uma manada de búfalos e sairei vivo.

Juro, ainda, que comprovarei que o mundo é matemático através da teoria da relatividade.

Acrescento, também, meus caros, que passarei - veja bem - em praça pública, um elefante pelo buraco de uma agulha, jogarei esta no palheiro e a encontrarei!

Farei, quem sabe, a travessia do Estreito de Bering refazendo os passos de nossos antepassados.

Produzirei uma Lua de Mel comestível. E serei rico por isso!

Voarei até o topo, qualquer seja esse topo que um tal de Sinatra costumava falar.

Aprenderei a tocar gaita com Bob Dylan.

Não direi que aprenderei a tocar guitarra com Hendrix. É muita prepotência...

Comprovarei aos tolos que a Literatura é maleável e que a escrita não possui moldes. A arte não tem sexo, bula ou manual de instruções. Usemos como quiser!

Explicarei do alto de um monte a metáfora do Gênesis.

Eu juro, juro mesmo, que comprovarei aos críticos literários que eles nunca conseguiriam fazer melhor.

Eu poderia jurar qualquer coisa. Eu poderia fazer qualquer coisa insana. Afinal, quando não se tem nada não há nada a perder. Poderia dizer, dizer, dizer. Poderia encher páginas e páginas de promessas e algum idiota poderia continuar lendo todas e acreditar. Eu só não sei se eu me renderia às promessas. Eu só não sei se eu mesmo acredito no que eu digo. Não sei..não sei se acredito em minha própria palavra de honra.
Como poderia prometer algo a outros se nem eu mesmo sei de mim?

Lamento.

Ai de mim! Pobre ourives - eu - que em minhas mãos, tremulas, pousa a pedra fundamental , filosofal ou ainda, se me permite, o elixir existencial.
Ai de mim, que de velho só trago o espírito. Escorrego pela beira da cadeira , em espanto, e me contorço tomado por uma apoplexia da alma. Ergo, em delírio, as mãos - aquelas mesmas de ourives- ao céu, ou antes ao teto, e exijo categoricamente o reembolso daquilo que perco.
E não perco, senão, o tato. Instrumento fundamental para as tentações humanas...Mas ai, que querem? Que querem que lhes diga, seus diabretes subversivos?!
Espere: eis que respiro. Aos poucos apoio-me unicamente nos joelhos e arranco de uma só vez e de um só gemido todas as facas cravadas em minhas mãos de ourives.
Não são as chagas abertas ou a carne que se rompe o meu maior motivo. Ei-lo: ali, no canto mais escuro, da sala mais pútrida esconde-se, envergonhado de si mesmo, o moleque descalço.
Impertinente!Impertinente e infame é você e desonra é a sua profissão!
Suma daqui que...ai, que dessa carcaça eu ei de cuidar. Cuido eu e cuidarei assim que me entregarem a sua cabeça em uma bandeja de prata.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Diálogo, Shakespeare .E cigarros.

-Ora essa, ora essa, chéry. Desconheço você.
Deu uma baforada no charuto. Puro, obviamente.Naturalmente toscano.Mas uma dama que se preze não perde a pose sequer em momentos esfumaçados. Não tossiu, nem demonstrou incomodo. Ao contrário, acendeu um cigarro, daqueles que se posiciona na ponta de algo parecido com uma batuta.
Abandonar o teatro logo no terceiro ato, cena I, de Hamlet não era coisa comum ou que passasse despercebida. Nem se tratando de um cavalheiro, quem diria de uma mademoiselle. Mas digamos que a senhorita em questão já vivia internamente um momento ser ou não ser, dispensando a máxima shakespeariana.
Montou uma expressão desdenhosa. Não a melhor que pode, pois necessitava ser pega na falsidade.
-E eu digo o mesmo de você, querido. Século vinte, ninguém se aventura em teatros. Apague o charuto.
O homem fingiu não escutar a ordem. Recostou-se na parede.
- É Shakespeare. Dispensa a contagem dos séculos. Como atua mal,você.
Ela riu-se. Forçosamente, diga-se de passagem. Tragou.
-Ou você percebe de menos, querido. Pois é exatamente por isso, Shakespeare ultrapassa a capacidade intelectual de 90% da população.
Calaram-se. Um casal de braços dados saiu do teatro e passou pelos dois.
-Como esses dois. Tolos.
-Conhece?
-Não. Mas a humanidade é previsível.
-Você se encaixa nesse grupo, chéry.
-Para toda regra há uma excessão.Sempre, destaca-se.
Riu da própria piada rápida. O cavalheiro não pode deixar de apreciá-la nesse momento.
-Você poderia ser grande, querida. Você poderia ser Rita Hayword.
Jogou o cigarro no chão. Ficou olhando apagar a labareda que ainda queimava por dentro. Ela.
-E você? Clark Gable?Não, eu poderia ser eu mesma. Eu poderia assistir Shakespeare.
Ele apontou para a entrada do teatro.
-E por que não o faz? Quer que lhe estenda um tapete?
-Sabe, Clark, isso seria previsível. Detesto pessoas previsíveis. Como você.
Disse isso, deu as costas ao ouvinte e tomou o caminho da calçada. Estacou.
-Tem mais?
Ele tirou um maço de cigarros do bolso interno do paletó. Jogou-lhe.
-Como sabe que eu fumaria mais de um esta noite?
Ele sorriu, arrumou o chapéu.
-Você é previsível querida, e comum. Você é previsível. E se odeia.





quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Pássaro de fuga. Boca Americana.

Os passáros batem asas fugitivas, porque fogem da mesmice. Os passaros não suportam voar o mesmo ar duas vezes. E duas vezes em um mesmo lugar não cai um raio, porque o raio tem mais locais a iluminar. Porque o raio precisa tocar o solo em outros quilômetros. Ele também não suporta uma mesmice.
Uma andorinha não faz verão porque o verão não se faz por uma causa só. O verão precisa chegar para esquentar mais almas. E uma alma perdida não se achará sozinha, porque ela está perdida e precisa ser encontrada. O filho pródigo estava perdido e foi encontrado. Então porque não matam o melhor cordeiro e preparam uma ceia?
O lobo se apaixonou pelo cordeiro não porque os opostos se atraem, mas porque os iguais se distraem, e eles eram iguais no fim de tudo: um correndo e outro fugindo, mas na mesma direção. Assim se distrairam, e trombaram.
Mas os passáros voltam para a mesma árvore mesmo sem suportar o mesmo ar. O raio cai duas vezes no mesmo lugar mesmo tendo milhas e milhas escuras. Uma andorinha aparece no verão mesmo vivendo em bando, e o verão aparece ainda assim. Uma alma perdida continua perdida porque ninguém sacrificou o cordeiro. E o lobo e o cordeiro continuam se caçando.
O mundo continua girando mesmo com um eixo invisível. Os polos continuam separados mesmo que as linhas sejam imaginárias.
Os passarinhos continuam engaiolados mesmo possuindo asas.
Os humanos continuam insensíveis, mesmo sendo o sentimento a única coisa imposta pelo arquiteto.

domingo, 24 de julho de 2011

mas ele não era.

sentado em um tamborete alto demais para seu corpinho. alguém suspeitaria ser contra a física sentar em um banquinho dentro de um trem. ele poderia estar em cima do trem, ai sim...
ficou balançando os pés que não alcançavam o chão. A paisagem lá fora não se mexia rápido demais. elas iam despedindo-se juntamente com os acenos dos ramos das árvores.
tirou a gaita engordurada do capote e levou aos lábios, com uma mão só. a outra permaneceu embaixo de uma das pernas, mantendo uma levemente mais alta que a outra. ficou com a gaita na boca mas não soprou.
um ratinho apareceu de um buraco no rodapé do vagão. trazia um violãozinho nas costas. sentou-se com as pernas penduradas na porta do vagão - também penduradas! (sabe-se que era um trem de carga)
arriscou um dedilhado, balançando o rabo com o ritmo do folk. o menino percebeu a sugestão e juntou a outra mão à gaita. juntou e soprou,aí.
as montanhas iam se repetindo, assim como a estrada de terra que corria ao lado do trem, esperançosa de ver alguém à janela do vagão e poder despedir-se com um aceno, em alguma curva que ela mudasse de direção. o moleque e o rato tocaram juntos sem trocar palavras. ao terminar a canção, arrumou o violãozinho no ombro e desapareceu no buraco do trem.
o moleque tencionou segui-lo. chegou a descer, realmente, obstante com esforço. mas não era Alice, e não coube no buraco.
voltou para seu tamborete, que agora parecia mais alto. tentou escalar os pés, inútil.
mas ele não era Alice, e não cresceu. pensou que poderia juntar-se ao maquinista, que tocava a sua gaita sinistramente no cair da noite. mas teria que correr pelo lado de fora...
tirou a gaita do bolso e pousou nos lábios. voltou a soprá-la e teve a sensação de crescer.
mas ele não era Alice, e não cresceu.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Ritual?

Estou certo que o amigo consegue imaginar um grupo incomum de Pierrots reunidos em praça pública. Acrescenta-se a isso um ritual maquiavélico (Maquiavel que não se revire no túmulo com o clichê), com, certamente, raízes africanas.
Batem os cajados sinistramente no chão. Andam em círculos. Gritam, por que não, no coreto. A magia, a macumba, o feitiço - como queira - está sendo feita.
Mas, espere!Falta apenas a lágrima sangrenta do Pierrot. Não é preciso esforços. O sangue já lhe brota do canal lacrimal e lhe escorre como lava pela face. Os cinco homens continuam batendo os cajados.
De cartola na cabeça e Colombinas nas mãos, viram em círculos tortuosos. Gritam no coreto. Já sentem a magia nascer das profundezas.
A lágrima vermelha pinga no solo. Todos param. Só os cajados ecoam. O líder sorri maliciosamente. As sombras insistem em continuar os passos. Colombinas fazem suas danças animalescas. Contorcem-se de dor enquanto dançam. A música de vozes continua.
Então do solo brota o sangue da lágrima. E o solo é então o canal lacrimal. Dançam em círculos enquanto tomam banho das lágrimas. Enquanto os pierrots gritam. No coreto.
Todos param. Só respiração escuta-se. O líder sorri ainda maliciosamente.
Feito.

P.S: obviamente há a origem da loucura : a dança.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Nau à deriva.

Quando o ego briga por espaço com o Kangchenjunga ( não sei pronunciar, não pensem...). Quando o gelo endurece a vidraça mas a mão transpira...adrenalina. E o que dizer sobre o domínio do lugar-comum? Não são Santo Agostinho mas se libertam do pecado original ( ou acham). O humor do dia é Álvaro de Campos em seu Lisbon Revisited. Pois não gosto que "me peguem no braço". Farta o senso critico em abundância dos outros, e, na verdade, o meu também. Ninguém vive de senso crítico. Mais vulgarmente : senso crítico não enche barriga, não! Ei sabedores de cinema, abandonem o mau-humor, tirem suas "partes" da cadeira e vão fazer melhor! Com o perdão pela vulgaridade. Que perdão! Ora essa, que satisfação devo e a quem? Além do mais vivemos em um país livre ! Façamos a liberdade!
A democracia não existe realmente ( mostrem-me os conservadores um país que a segue!), e os engraçadinhos responderiam que "nem o Acre". Quem sabe a felicidade de no mundo só existir o rock ocupando o espaço que hoje é do ar. Ou melhor ainda, quem sabe o último romântico seria o último mesmo!
E se existisse três cachorros para cada pessoa? Talvez essa seja a utopia da paz mundial. Se ai todos os ídolos mortos por overdose, AIDS e tudo o que sexo,drogas e rock and roll causam levantassem de seus túmulos fazendo a introdução de Smoke on the Water?
Se alguém segurasse Hitler para que todos os injustiçados pudessem cuspir na face dele?Se todos os soldados se recusassem a partir para uma guerra? Se os EUA perdesse todo seu territorio em um tratado pós-guerra?(eu duvido que algum país cederia abrigo a eles). Isso tudo é o que eu chamo de " a justiça foi feita".
Mas e se os desaparecidos políticos não tivessem protestado, se os universitários nao tivessem coragem, se os militares tivessem multiplicado seus dias de tortura? Se o muro de Berlim não tivese caído?
E se um vento vindo do Leste levasse todos os maus e soprasse mudanças? Se o terrorismo nao existisse ( mas e se ele fosse vitorioso?), se a expressão "conflitos no mundo árabe" nunca fosse usada? Se a China não conhecesse a censura? Se a Coreia não tivesse ditador?
E se do solo africano brotasse alimentos ( ou brotasse sangue?). E se o tráfico virasse profissão?
E como seria se o homem não tivesse pisado na Lua? E se o homem não tivesse pisado na lua durante a Guerra Fria, quando pisaria?
Se amanhã o sol decidisse tirar folga. E se as plantas se fartassem da fontossíntese? ( existiria laboratório para corrigir a mutação?)
O Astronauta pensa em coisas absurdas como essas o tempo todo. Mas o que mais me intriga é nunca sair do "se". Há muito mais entre o "s" e o "e" do que sonha nossa vã filosofia.


quinta-feira, 26 de maio de 2011

Debaixo da Superfície

"Por que estou a sete pés de profundidade e de cabeça para baixo?". É justamente pelo fato de você ver o mundo não ao avesso - como os comuns - mas virado e debaixo da terra, das entranhas do "vir a ser". Não relacione com nenhum tipo de Alegoria da Caverna, pois não há intertextualidade aqui. Quando a pauta é ver o mundo tudo o que já foi dito escorre das páginas e inexiste.
Que seja de uma redoma ou do alto de uma montanha da lua, você precisamente o vê. E, diga-se de passagem não há religião ou filósofo que interfira.
E você está a sete pés pois não há absolutamente nada como ver as coisas de baixo e do lado de fora da situação. Como é da natureza humana viver e tornar-se cômodo, por que também não o ser nessa questão?
Olhando daqui de cima o século XXI, digo com convicção que o problema alheio nunca foi demasiado interessante a outros. Pois há quem veja o mundo de dentro do mundo de outrem.
Felizes os peixes de aquário! Pois vivem na tal alegoria citada - e que causa enfado ao Astronauta- pois são poupados da tarefe de "ver o mundo". Mas quem foi o palerma que disse que é preciso fazê-lo? E se eu lhe disser que não vejo, não vejo nada?E se Saramago virou Deus e colocou em prática seu ensaio sobre a cegueira? ( afinal não seria mais poético seguir Bilac e " ver e ouvir estrelas?")
"Mas isso não é ser cômodo, Astronauta?" você me perguntaria. Não, isso para alguns é ser covarde. Para mim, é ser poeta.
Então, parem todos de ler essas palavras descabidas que estou a escrever e vão excluir-se em seus aposentos, a fim de formular sua forma de ver o mundo ( como se fosse marketing)! Não se esqueçam da criatividade nem seu ângulo de visão : a sete pés e de cabeça para baixo.

terça-feira, 17 de maio de 2011

Nem às paredes confesso.


Sim! Sou viciado em palavras cruzadas e sustento meu vício. Sim. Eu admito. Como assim? Se vi o muro de Berlim? Não,senhor, não tive a oportunidade de presenciar sua queda muito menos sua construção. Pergunta se aprovo a didática? Já disse em outro texto que detesto a didática. Suponho que tenha ficado claro, senhor. Também não tenho religião. Mas é óbvio que isso não significa que não acredito em Deus. O caso é : defina "Deus". Não tenho nada contra ao movimento das Vanguardas, apesar de não ser grande apreciador de Picasso. Digo abertamente que prefiro Da Vinci ou Van Gogh. Não é segredo para absolutamente ninguém.
Infelizmente, sim, me fizeram " trocar meus heróis por fantasmas". Bom mas que culpa eu poderia ter se todos os meus ídolos estão mortos? É natural que virem fantasmas.
Não, não tenho preferências por cores, senhor. E não aprovo a ordem cronológica. Na verdade, lancei um projeto: os relógios deveriam caminhar ao contrario. Assim, com o tempo a regredir. Daí você diria " faltam cinco minutos para acabar as 15h ". Inútil, mas genial ( mas ai eu fico pensando se as pessoas também não seriam como Benjamin Button).
Não sou prepotente, creio. Nunca me disseram. Em uma aula que me agrade muito costumo não participar nem lançar ideias. Como se não me importasse quando é absurdamente o contrário. E é verdade que tenho certa dificuldade em demonstrar satisfação.
Quando estão a falar de um assunto, senhor, que - modestamente- tenho certos conhecimentos, costumo não interferir na conversa.Ora por que! Pois sempre tenho a impressão que me tomariam como orgulhoso e vaidoso !
Como pergunta? Se conheço Mick Jagger? Obviamente, senhor, quem não o conhece?! Não, nunca tive ganas de passar-lhe o rosto a ferro.
Ora essa! Que pergunta indecente! Não, me recuso a responder. Admito, também, que chorei quando Patrick Swayze morreu. Também tenho inveja de quem viveu os anos 80. E todas as outras décadas anteriores. Percebo pelos fios que o senhor viveu esses anos. Logo, tenho inveja do senhor.
Confesso que tenho quedas por esses musicais, em que todos dançam juntos e ordenadamente. Confesso, também, que tenho certa curiosidade em ler Byron.
Mas é claro que não! Não me atrevo a interpretar as entrelinhas de um poema!
Preencha na ficha: Astronauta de Mármore. 5 anos-luz. Lua. Profissão? Navegador de Estrelas. O Objetivo no mundo? Bem senhor, essa é a pergunta mais difícil que me fez até agora. Mais que a tal pergunta indecente. Mas veja bem, acho que meu objetivo no mundo é...talvez..por que não? (não, não vou dizer "ser gauche na vida") Notar detalhes ignorados?

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Narrativa esquizofrênica.

-Feche as cortinas encarnadas.
Teve a leve impressão de que sua consciência lhe dava ordens. "Curioso". Fechou as cortinas, então. Tornou a sentar em sua poltrona e ficou a observar, no escuro que fosse, as franjas do tapete. Era persa, isso era. Comprara de por alguns contos de um mascate logrador.
O relógio, com o índio americano talhado , badalava de pouco a pouco. "Já chega, já", dizia consigo. "Daqui a pouco ei de escutar o toc-toc".
Dizia isso e concordava consigo mesmo. Ótima hipótese. Sim, senhor Marques, notável. Lembrou-se que na mezinha de canto havia um livro com palavras de Byron. Esticou o braço e já sentiu a capa.
-Não vai ler Lord Byron, vai?
Ai percebeu que era o índio que lhe falava. Não a consciência. "Por que não leria?"
- Ele falava sobre necrofilia. Já é um bom motivo.
"É literatura. Já é um bom motivo".
Começou a ler na escuridão. Tateando as páginas, assim como um cego.Não que não o fosse, bem sabe, de mente.
Com o canto dos olhos olhava furtivamente os raios lunares que viam espiar seus aposentos pelas frestas da cortina. "Curiosos". Foi até ela e certificou-se de que não sobrara nenhum espaço. Enquanto fazia isso, viu lá em baixo no beco, um gato magricela sentado frente a um rato. Pareciam conversar. Sim estavam. O rato parecia desesperado, apontando para uma direção. O gato curvava-se e aproximava-se do rato para escutar melhor seus grunhidos.
Provavelmente viram o sr. Marques e olharam para cima. Rapidamente ele fechou de todo a cortina antes que decidissem subir pedir satisfações.
- É isso que dá ser curioso, Sr. Marques - disse o índio.
" A curiosidade não chegou aos Apaches?" perguntou irritado.
-Não deu tempo. Mataram-nos antes. Agora, seu fosse o senhor me esconderia.
O homem ficou parado , no fundo da sala, encarando o índio de longe. Talvez tivesse razão. Pois é certo que logo escutaria o toc-toc.
- Mas o toc-toc do gato. E do rato, o que é pior.
"Ah cale-se. Escute: estão subindo".
-Tranque a porta.
Antes de trancá-la abriu uma festa de modo a ver o gato e o rato já subindo as escadas com as duas pernas de trás. Trancou-a, então. Não demorou muito para ouvir o toc-toc.
Toc-toc.
"Quem é?"
Mas ninguém respondeu. "Armadilha". Na certa.
Entrou em baixo da mesa equanto contava, por algum motivo, em números ordinais.
-Sabe que dia é hoje?
"Quarta-feira".
-Exato . É quarta. O relógio já bateu a hora morta. O toc-toc sabe? Você ouviu. Não era o gato nem o rato.
"Então era a hora morta na porta?"
-Não, era só a morta.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

O pão que a velha amassou.

Na rua de minha casa havia uma padaria. Nenhum nome mais criativo do que algo que termine com "Pane", "Belle" ou qualquer outra palavra italiana que vemos aos quilos ( de pão!) nas panificadoras. E também não possuía nenhum balcão recheado de doces feito no dia anterior. Não, nada disso. Era só uma padaria. E havia pães.
E além de pão havia uma velha. Ela era gorda, tinha algo em torno de meia dúzia de dentes, esmaltes corroídos nas pontas e seios grandes. E acreditam ou não, era ela que fazia os pães. Eu comprava na minha ingenuidade infantil de que existem bactérias e clorifórmios fecais no mundo.
Mas eu sempre admiti que o pão era importante. Ele sempre foi mais que trigo e Pó Royal (desde 1920). Ele é a base da pirâmide alimentar! E sendo pirâmide uma figura geométrica digna de respeito, o pão não poderia ser diferente.
Alguém já parou para pensar o quanto o Pão ( letra maiúscula, sinal de respeito) é ancião? Desde primórdios, desprovido de fermento ele estava lá! Nada mais nada menos que Leonardo da Vinci já o retratou e ainda mais na Santa Ceia. Ele foi símbolo ( e é) do corpo do próprio Cristo!
Aí você me dirá: " mas Astronauta, Cristo também multiplicou peixes". Sim meu caro, mas não é peixe que os católicos comungam todos os Domingos.
Não! Nada disso! Não há argumentos que diminuam a grandeza do Pão. Ele também está presente em orações e em ditados populares. Madruga todos os dias para estar em nossa mesa às seis horas da manhã! Ele é o principal exemplo de carboidrato usado na escola!
Enfim. Eu comprava os pães daquela mulher. Praticamente todos os dias. Sem saber a procedência. Mas alguns dias atrás, parei e pensei: quando se trata de pão parece que não nos importa a origem. O Pão simplesmente é. Ele é tão nobre que faz-se por si só!
Ele estava na boca de Audrey Hepburn na cena inicial de bonequinha de Luxo!
Bom, o Pão é um alimento tão velho quanto a velha que o fazia naquela padaria. O Pão é velho, mas nunca sai de moda!
Sim, eu comi o pão que a velha amassou.

terça-feira, 3 de maio de 2011

O Bruxo do Cosme Velho.

Não preciso de muito para expressar aqui, em uma palavra, ou talvez mais, minha perplexidade diante do Bruxo do Cosme Velho. Este distinto senhor causa no Astronauta calafrios e sonhos estranhos na hora morta. E a sensação de embriaguez diante deste senhor é tamanha, que vejo em cada semblante marcado pelos anos e em cada ruga de tempo um Bruxo do Cosme Velho.
Mas que fique claro que a perplexidade é muito bem vinda. Por ele e diante dele não tenho outra sensação senão essa mesmo.
Já fui interrogado, inúmeras e inúteis vezes, a respeito de meu interesse em idosos. E não há melhor resposta que esta. Interesso porque vejo em cada um, um quê machadiano. Um quê literário e de pessoa sabida das coisas. Ainda mais sobre a arte do não viver. E arrepender-se.
Os idosos, para mim, exalam Machado de Assis. Ainda mais, eles transparecem século XIX. Não que eu conheça alguém com essa "data de fabricação", pelo menos não no mundo material. Mas como já dizia Lennon, se você acredita, qualquer coisa existe e é real. Sob essa lente, então tenho amigos, de longa data, que vivenciaram esse século de alma, e moram logo ali, em meu guarda-roupa.
Não digo simplesmente que admiro Machado de Assis ou que o considero gênio. Digo somente, e modestamente, que o compreendo e o vejo. Vejo o bruxo que morava dentro dele. E vejo também essas tantas faces que ele foi; cigano, seminarista, cão, defunto-autor( ou autor-defunto), cartomante...
Mais que tudo, o Machado vive. Vive em minha mente empoeirada e coberta de teias de aranha e que eu não faço questão alguma de limpá-la. Dentro de minha redoma vejo o mundo como me convém.Logo, vejo o século XIX. E que cada um interprete à sua maneira o que eu quis dizer com isso.
Têm-se, então, que meu fim evidente não é outro senão enlouquecer enquanto converso - agora sim de corpo e alma - com meus amigos de 1800. Vejo que meu fim evidente vai ser tão empoeirado de livros e traças quanto minha mente já é. E o leitor pode ter absoluta certeza que não desejo tanto outro fim senão esse.
Que o pó me seja leve!

P.S: peço escusas à meu amigo O Hobbit. Sei que disse que escreveria sobre o tema que o senhor meu amigo sugeriu, em meio à equações matemáticas. Porém, tive uma inspiração repentina e uma crise de adoração pelo Machado, e quando se tem tamanha inspiração não se pode deixar passá-la. Prometo-lhe que o próximo tema será o escolhido pelo senhor.

terça-feira, 26 de abril de 2011

Gênesis canino : um delírio.


Hoje, tomado por um tédio desmedido, irritei-me com a primeira pessoa do singular e decidi descobrir as maravilhas da 3ª. Pra tal exploração não pude abrir mão de certa maluquice neste post e que já começarei antes que o "eu" me leve ao ápice do estresse.
Ei-lo:

Em um certo ano, de uma certa época em um planetóide ainda não explorado, existia um cão. Esse cão tinha um nome excepcional, palavra desdenhosa e difícil de ser pronunciada pelas espécimes vitais do local. Chamava-se O Cão.
O Cão ( substantivo próprio) sentia-se sozinho em meio à projetos de felinos. Lembrou-se, então, de um certo osso que tirara da perna esquerda de um individuo não identificado ( e que aqui não vale lembrar) e que enterrara no Royal Botanical Garden. Desenterrou-o. Lambeu-o. E assim, no findar do primeiro dia, fez-se o Homo Neanderthalensis.
O cão (agora só substantivo) disse ao Homo - criatura muda - que seriam sempre amigos e, como seu criador, concedera a ele uma porcentagem da sua dádiva da fidelidade. Fidelidade esta que o cãozinho até então não pudera utilizar com ninguém.
Ao passar do tempo, as duas espécies conheceram-se, trocaram confissões... até que Homo passou a desenvolver traços do que seria muito posteriormente chamado de caráter. Infelizmente, o caráter do Homo não assemelhou-se à de seu criador. Pois não fora feito à imagem e semelhança.
A Seleção Natural, contudo, estabelecia a permanência dos mais sensatos e bons. Sabendo disso, O Cão, preocupado com seu filho, foi ter com a Seleção, criatura racional e puramente Darwinista que não deu ouvidos a ele. Mais que isso : decidiu que chegara a hora de testar Homo. Para tanto, disse a ele que o transformaria em Homo sapiens sapiens se experimentasse de um fruto esverdeado de nome Dinheiro. Com sede de evolução, Homo experimentou-o, mesmo tendo seu Pai avisado-o a respeito dessa tentação apenas existente no Royal Botanical Garden e feito-o prometer.
Homo não cumpriu a promessa. Partiu o coração do pai. E não evoluiu até hoje!

P.S: após escrever este texto, descobri a existência de uma passagem do livro do Genesis de título, ' A maldição de Cão".