Hora de colocar minha cadeirinha na varanda. Também é essa a hora de ver o nada virar coisa nenhuma. Sobe e desce, sobe e desce. Os carros sobem e descem a minha rua. Rua do Cosme Velho. Não digo o número. Não gosto de visitas.
Estou rabugento hoje, sim. Estou porque é hora de posicionar a cadeirinha para escutar o silêncio mas essa mesma cadeirinha me interrompe com seu nhec-nhec. Parafuso velho, é isso.
Sabe que essa cadeira de balanço pertenceu a papai? Nasceu em 1907 e morreu no dia dois de fevereiro de 2001,aos 94 anos, às três horas da tarde. E nessa cadeira, veja bem.
É, meu caro.
E como é hora de colocar a cadeirinha na varanda, eu fico esperando o relógio badalar as seis horas. Dois adolescentes sobem a rua de mão dada. No meu tempo? Pouca vergonha. Um joão-de-barro chega em casa. Longo dia, longo dia.
O cheiro de sopa de batata com pão. Nada melhor do que jantar cedo, na minha cadeirinha. Manta bem posicionada nos joelhos. Respira, inspira. O pulmão é uma coisa curiosa, certamente. Cigarros desde os quinze e ei-lo!
Quando se é velho a gente volta a ser criança. Mas eu não gosto muito de crianças. Elas fazem muito barulho. E não respeitam os mais velhos.A benção, pai. A benção, mãe. Que nada! Esses jovens de hoje em dia nem sequer querem ser abençoados! Eles querem paquerar, é isso que eles querem!! Na minha época, só se paquerava na praça, ao longe.Com piscadelas.
Mas chegou a minha sopa de batatas. Mamãe costumava fazer essa sopa aos domingos. Sim, aos domingos. Ou não?
Não importa. O que importa é que hora de botar a cadeirinha na varanda.
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segunda-feira, 26 de setembro de 2011
sexta-feira, 16 de setembro de 2011
Conversas que tenho comigo.
Nascendo ou morrendo, o caso é que todos acabaremos em fraldas. Peguei um espelho hoje, desses pequenos que se equilibram na penteadeira bamba - as mulheres de hoje não as usam mais, uma lástima - moldura laranja, reflexo deteriorado...vi o Velho MacGregor mais velho do que ontem de manhã. Cabelos rareando, pele fina e fazendo dobras. Levantei as mãos mais trêmulas do que o Mal de Parkinson; estiquei o indicador. O indicador do outro lado também se levantou, tão fino e tão branco quanto.Comecei a aproximá-lo, atento a qualquer movimento que o outro também fizesse. Aproximou-se também o dedo do Velho MacGregor, um pouco hesitante, sem saber se deveria. O meu enfim tocou o espelho, e enfim o indicador do Velho resolveu me tocar também. Assutei com o movimento brusco e retirei de repente. "É MacGregor, envelheceste, velho companheiro". Ele sorriu em reposta. Disse que concordava e que eu também já não era o mesmo reserva do quinto batalhão do ano de 1944. Robusto, sagaz. Rapazola.
O Velho deu uma olhada para trás, como se entrasse alguém. Deixou um pouco o espelho e voltou em seguida. Olhei-o ai mais atentamente.Estranhamente cedi ao meu impuslo de tocá-lo no rosto. O MacGregor estava gelado como defunto! Quase achei que estivesse batido as botas. Ai lembrei de levar as mãos ao meu peito e sentir o tum tum. Ritmado. Mas fui sentir um tum...tum...tttt...tum.
É, também já não era mais o mesmo.
Deixei o espelho. Mas fiquei com a velhice, bem ali - não mais no reflexo- mas nas batidas do meu velho motor.
quinta-feira, 15 de setembro de 2011
Infância da velhice.
-Texto de Apresentação.Quando eu costumava ser jovem, tanto quanto você meu rapaz, eu não o era. Tinha as faces rosadas, as mãos lisas, cabelos onde eles deveriam estar...mas já sentia os meu órgãos a enrugarem dia após dia. Acreditava que sofria do mal da porgéria, você sabe. O que eu quero dizer é que sempre me senti velho.
Não pense que sofria com minha velhice precoce. Ser velho era e ainda é, agora que posso sentir a velhice nos tremores das mãos e nos sinais da osteoporose, o meu porto seguro.
As pessoas acreditam ou pelo menos pensam uma vez na vida que ser velho é cheirar a urina e varrer a calçada de manhãzinha. Mas não é, meu rapaz. Ser velho também não é simplesmente ser sábio. É já ter vivido. É já ter visto, talvez com alguns dissabores, tudo aquilo que os jovens imaginam com tanta angústia. É já ter visto tudo que se poderia ver, é conhecer tudo o que os moços e moças pagariam milhões para saber. Ser velho é contar enquanto respira e inspira, ainda que seja pra se ter certeza se estamos vivos, mas observando, sentindo realmente a respiração que nos permite sê-lo. É poder ter apenas nas rugas ou nas costas curvadas as marcas de sofrimentos e problemas, mas não mais na cabeça.
Estar velho é estar satisfeito por ter cumprido a missão de viver. É saber que já estão passadas todas as fases da vida, ainda que não plenas, mas experimentadas. Ser velho é estar na outra ponta da vida, para começar a atividade de atar as duas pontas e analisar se valeu a pena. É estar no último degrau e poder estender a mão para os que ainda sobem, como você.
Éh, bem. É por tudo isso. As pessoas sempre me perguntaram porque eu gostava tanto da velhice. É por tudo isso.
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