sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Fim, início ou eternidade?

Agonia. Sangue. Espada no chão. Escudo destruído. Armadura... Penetrada. Socorro.
A chuva bate em meu rosto, escorrega por ele, se confunde entre as lágrimas.
Levanto os olhos, examino a sombra com quem lutava. Grande e vil, insaciável e impiedosa.
Desisto. Soco a lama, grito aos céus “Levem-me para Valinor, levem-me!”. Deito e espero o manto negro.
Um silêncio mortal cai sobre a noite, não ouço chuva, não ouço trovões, não ouço rugidos.
Ouço... Ouço passos. Leves, delicados. Viro-me, uma áurea branca se aproxima.
Deita-se na lama comigo, não se suja. Na verdade, espanta a sujeira.
Abraça-me. Beija-me. Passa as mãos pelo meu corpo indefeso. Cura-me. Desmaio, atordoado.

Acordo. Sem escoriações, sem ossos quebrados, sem sangue, sem agonia, sem dor.
Lá está. A... criatura. “Olá” – digo – “Obrigado por me salvar”.
Não compreendo, aquilo correu. Fugiu quando agradeci.
Levantei e vasculhei. Vastos corredores claros de pedra. Uma fortaleza?
Não havia ninguém.
De repente, me encontro num jardim. Verde, fresco, florido, belo. Não sei como cheguei aqui.
Ouço passos leves, delicados. Era aquilo.
Sinto-me mal. Desembainho a espada, retiro o escudo das costas. Armo-me.
E lá está, a criatura que me salvou. Pequena e humilde, graciosa e bela.
A paisagem... O jardim... Está mudando a minha volta, escurecendo. Aquilo caminhando.
Escuridão nasce do brilho, fogo do verde, desespero da calma... Morte da vida?
Iluminados pelo fogo, enxergo destroços. Os grandes corredores destruídos, esquecidos.
A minha frente, a criatura. Se modificando. Do claro à sombra. De pequena à grande. Graciosa à vil. Bela à impiedosa. Humilde à insaciável.
E surge a sombra. Aquela sombra. Chegou o dia, este É o dia, jovem Hobbit, o dia em que a destrói.
Chuva apaga o fogo. A estrela de Eärendil em minha mão ilumina o local. Lá está, correndo.
Sou atingido, escudo destruído. Novamente. Esquivo-me um ataque após o outro.
Assim, sobrevivo. É matar ou morrer. Ah, devo fugir, senão morrerei. Corro.
Corro sem olhar para trás. Trombo com uma árvore. Um Ent. Para ser sincero. Vários deles. Não me deixariam ir, era essa a hora de enfrentar... Aquilo.
Volto. Tremo. Temo. Suo. Grito no interior. Aponto Eärendil na direção da coisa.
De nada adianta. Aquilo a tirou de minha mão, quebrou-a, a luz esvaiu-se e morreu na escuridão.
Não vejo nada. Um olhar perverso, talvez. Sons pelas minhas costas. Imaginação?
Sou derrubado. Grande ferimento em minhas costas.
“Covarde” – grito – “Enfrente-me como um soldado, elmo a elmo!”.
Levanto-me. Aparece em minha frente. Engrandece-se. Fortalece-se.
Ataca-me. Escorrego por entre suas pernas. Desvio de outro ataque. Defendo mais um.
Ferroada se trinca. “Tenho que terminar isso logo”, penso.
Desvio e escondo-me. Escalo.
Ataco-o por cima, sem dó. Com medo. Com dúvida, “Isto é o certo?”

Mas destruo-o. É o fim. Finalmente, o fim.
Pequena e Grande, Vil e Piedosa. Não importa, a criatura está morta.
Agora vivo a vida e espero a próxima. Ou a procuro. Por um fim em tudo, quem sabe?
Ou ter o meu fim.
Ou ter a eternidade.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Mademoiselle



Ela está todo dia, naquela mesma taverna suja e escura, sentada no balcão com o olhar perdido. A Mademoiselle - como a chamo por falta de um nome verdadeiro - entra na taverna lá pelas onze da noite, e de manhã, quando eu chego, ainda está lá. Não sei quantas doses essa mulher já tomou, mas ela conserva, em parte, a sobriedade. Eu me sento ao seu lado e conversamos.
"Aqui não é lugar para um garoto!" ela diz , "nem para uma dama!" respondo. "Você não sabe de nada moleque...olha pra mim, veja todos esses brilhantes, esses trajes! Eu sou rica sabia?Posso tudo!...e no entanto...cá estou, perdida num copo de bedida, a qual nem sinto mais o gosto...Mas o que queria? É a única solução...não, a única solução é a morte, mas para isso falta-me coragem."
Perto dos seus cinquenta anos, Mademoiselle é uma mulher extremamente infeliz, insatisfeita, e , como muitos, afoga as mágoas na bebida. Eu sou seu ouvinte costumeiro, mas por mais que ela fale, nunca soube realmente o que lhe aconteceu...alguma frustração amorosa, algo relacionado a um casamento arranjado...Ela passa a mão pelo balcão engordurado, mostra um sorriso amargurado e sai.
Mais uma figura das entranhas de Paris, é essa Mademoiselle, mais uma personagem com seus sofrimentos, seus segredos, seus medos. É curioso como as pessoas dentro de suas singularidades conseguem ter sentimentos e razões tão comuns! Sublime paradoxo é o ser humano!

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Lápis

Lápis. Um... simples lápis. Amarelo, número dois gravado em preto, Staples, ponta fina e resistente, parecido com aqueles de filmes americanos, faltando apenas à borrachinha rosa no topo que se extinguiu de tanto eu tentar apagar meus erros na vida, de tanto me frustrar não conseguindo.
Amarelinho no seu canto, ele me olhava pedindo para ser usado, escurinho no papel, ele pedia por clemência. Gritos silenciosos de sua boca muda quando eu o apontava para fazê-lo mais fino, mais... Melhor.
Tanto que escreveu esse lápis, meu lápis, tanto que leu, tanto que segurou minhas lágrimas e escutou meu choro. Tanto que... tanto que pediu silêncio. Me desculpe, eu não queria ser tão triste assim, você sabe e, ah, como sabe! Meu lápis amarelinho sabe de tudo.
E agora? Meu lápis amarelinho com número dois e Staples gravado em preto sem borrachinha rosa no topo está acabando. Às vezes penso que sou muito perfeccionista, ou que quero tudo do meu jeito... Afinal, a culpa é minha que eu apontei ele tanto para ficar com aquela ponta, que logo acaba, porque eu sei: ninguém, e nada, é perfeito. E nunca será, por mais que eu mude.
Coitadinho do meu lápis amarelinho sem borrachinha rosa no topo com número dois e Staples gravado em preto.  Ele que abraçou tanto a minha mão, ele que sempre me ajudou. Mas acho que ele está é agradecido por acabar, aposto que ele preferiria ter caído nas mãos de uma criancinha que nas minhas tristes, porque ele sabe que não pode fazer nada para me ajudar, que o seu grafite no papel não é o suficiente.
Realmente, meu lápis amarelinho sem borrachinha rosa no topo e com número dois e Staples gravado em preto, não era o suficiente! Nunca foi e nunca será. Mas, olhe, como você me ajudou, como me ajudou! E obrigado, meu lapisinho, eu o amo. Acabe em paz, eu sentirei sua falta, meu lapisinho sem cor, sem borrachinha no topo, sem grafite, sem madeira, sem nada... Você sumiu assim como apareceu.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

O velho homem do mar


Eu estou sempre caminhando pelas ruas e observando, eu observo muito, e não poderia escrever sobre minha vida sem mencionar um personagem muito singular, que compõe esse quadro ainda mais singular que é Paris. Estou falando de um senhor, um homem de idade avançada que está sempre no mesmo horário, no mesmo local, esperando o bonde passar.
Boina na cabeça, um casaco apertado e o jornal da manhã amassado embaixo do braço, assim é o nosso personagem...Fechado dentro de si mesmo, parece viver por uma simples questão de obrigaçao, cumprimenta as pessoas sem nenhum vestígio de boa vontade, escravo da cortesia que é...mas o que faz dele uma pessoa singular não é sua falta de interesese pela vida, é seu ar de sabedoria, de velho homem do mar...sim, um velho marinheiro aposentado, capitão do primeiro navio à vapor que atracou no porto de Marselha, já atravessou oceanos, enfrentou tempestades e tem muita história pra contar, conhece a vida tão bem como eu conheço Paris...
Mas veja só aonde nos leva a imaginação!Talvez ele seja um simples homem amargurado, com muitos sonhos mas nenhuma realização, alguém que teve todas as oprtunidades na vida, não soube aproveitar e agora culpa o mundo por isso, ou um homem cansado, à espera de uma aventura que nunca chega...é um mistério que eu nunca pude revelar, ou nunca quis para não pôr fim ao interesse...
O bonde finalmente chega , ele olha para os lados como uma última esperança de que alguém apareça, sobe e o bonde continua seu caminho. Até logo, capitão, segue sua viagem, se um dia resolver voltar às águas e viajar até as terras do além-mar lembre-se de um pobre garoto que, assim como o senhor, está sempre à espera da aventura seguinte.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Arwen

Era dia de comemoração em Valfenda!
O fim de mais uma lenda.
Via uns chorando,
Outros sorrindo
E eu, ah, dançando.

Não era o único, claro,
Tinha amigos ao meu lado,
Não havia ninguém sentado!
Canções e fábulas de aprendizagem,
De paixões e de palavras de coragem.
E este velho Hobbit surpreendeu-se ao ver que,
Apesar de tantas aventuras ter feito parte,
Ainda não conhecia a verdadeira arte
De ter bravura
Nestes tempos de loucura.

Vi ao longe a elfa.
Ela chora, seus companheiros riem.
“Levanta a face, jovem, afronta!” – eu torci.
Essa foi a primeira vez que algo que pedi
Se realizara.

Intrometido, estendi meu pescoço para escutar;
“Não veem o que estão a fazer-me?
Chega de me fazer chorar!
Pensem antes de falar!
Não percebem que machuca meu espírito?
Tuas falas cruéis de nada são piadas –“

Nunca vi tantas elfas se sentirem culpadas.
Se sentirem como escória.
Coragem assim como a desta bela criatura
Não conheci nem em história!
Via nela agora... A tão procurada Paz.

Andei até lá devagar
Com minha bengalinha,
Com surpresa abracei-lhe,
Limpei-lhe as lágrimas
E disse-lhe:

“Orgulha-te de si mesma,
Fizeras o que nem o mais bravo dos homens
Tem coragem de pensar em fazer.
Levanta-te e orgulha-te,
Brava elfa,
Tua história será contada
Por toda a Terra Média
E serás lembrada para sempre”

“Arwen”,
Ela me disse.
Imagino que seja seu nome...

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

O que você (nâo) vê!

Onde você vê lixo:
Alguém vê um banquete!
(odeio berinjela!)

Onde você vê sujeira:
Alguém vê trabalho!
(meu trabalho é tão cansativo!)

Onde você vê confusão:
    Alguém vê revolução!
(Bando de baderneiros!)

Enquanto você não acha nada de bom:
Alguém acha esperança!
(As coisas são assim mesmo, não vão mudar!)

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Menino de rua (texto de apresentação)



Ele caminha pelas ruas, sem rumo, sai do nada em direção ao lugar nenhum. Não tem pai, mãe, nem nada que possa chamar de seu, talvez um cãozinho maltratado - pele e osso, como se diz - e um casaco surrado, que achou jogando em algum beco.
Conhece todos os cantos da cidade, conversa com todo tipo de gente, do lunático da praça da Bastilha à madame da Champs- Elysées. Já foi expulso, muitas vezes, a pontapés, daquela padaria da esquina - " eu só queria um pedaço de pão, amigo!" - mas é bem vindo na taverna onde se encontram os estudantes, aqueles, os que vão derrubar o governo!
Ele sabe das coisas, conhece a vida como um senhor de setenta anos, foi obrigado a conhece-la, jogaram-no nela e lhe disseram : se vira! E é isso o que ele faz todos os dias : sobrevive, ou como ele diz, dá seu jeito.
Mas quem é esse "ele" afinal? "Ele", na verdade sou eu. Eu sou esse garoto que você vê andando sozinho pelas ruas, esse garoto sem nome, família, sem moradia fixa e sem futuro, sou esse garoto a quem todos chamam de moleque. Eu sou o Moleque de Paris.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Sobre dois amigos e uma certa Felicidade

Abri a porta e lá estava ela.
Ela quem?
A Felicidade, ora essa!
Parada a sua porta? Sei.
É verdade, ela estava lá!
E o que achou dela?
Bela, muito bela. E sorria para mim.
Só faltava estar chorando! E convidou-a para entrar?
Não foi preciso, entrou sozinha.Ficamos sentados um olhando para o outro. É engraçado, esperei por tanto tempo essa visita e quando, finalmente, ela chegou, eu não  soube o que fazer.
Você é patético.
Talvez eu seja. Eu podia ter pedido pra ela ficar, morar comigo, sabe? Sei que daria certo, mas ela me intimida...
Ela iria embora de qualquer jeito, sabe como ela é, nunca fica por muito tempo. Relaxa, ela volta.
Ela não saiu pela porta, saiu pela janela. Esquisito, não é?
Previsível, eu diria.
Onde será que ela está agora?
Na porta de outro alguém, pronta pra iludir mais um e ir embora de repente.
Como ela fez com você?
Sim, como ela fez comigo e com todo mundo.Ela pode ser bem cruel às vezes.
Ela só cumpre seu dever.
Você acredita mesmo na Felicidade? Digo, que pode tê-la para sempre?
Mas é claro!
Então ouça meu conselho, velho amigo: na próxima visita feche bem as janelas, para não perde-la mais uma vez!

terça-feira, 29 de novembro de 2011

E eis que chegamos ao fim

Quando terminei minha história, Matthew me olhou como se esperasse algo mais e ,vendo que eu não continuava, apenas se levantou e foi embora. Meu Deus, como ele me era familiar! O jeito de andar, o olhar protetor...passaram-se dias e nada da visita de meu amigo e, então, numa tarde qualquer ele apareceu.


Eu não estava em meu quarto e sim passeando no jardim, nós nos sentamos em um banco de madeira e ficamos assim por um tempo, um olhando para o outro, ambos como se esperassem respostas.


"Por que desapareceu por tanto tempo? Me deixou aflita! Resolveu fazer como Lionel, que me fez esperar tanto tempo sua volta e..." Meu coração quase saltou pela boca . Ah céus agora tudo fazia sentido! Tamanha semelhança não era coincidência! Ele não era um amigo, nem sequer era Matthew, aquele homem misterioso e tão solidário era Lionel, meu querido irmão!


Joguei-me em seus braços e nós dois choramos com tanta força que quase faltou-me o ar. Foram todos esses anos me procurando, para me encontrar ali, jogada num hospício!E eu não fui capaz de reconhecer meu próprio irmão, contei a ele toda minha história e nem ao menos percebi a emoção em seus olhos! Entendi, então, que, de fato, todos eles tinham razão.


Por que eu era a única que recebia as visitas de JJ? Por que somente eu falava e ele apenas sorria? Por que eu tinha rugas, fios brancos e ele continuava jovem e belo? Por uma simples razão: JJ estava morto e eu estava louca.


Minha falta de lucidez nunca me permitiu ver o absurdo que me acontecia: fugi de casa, fechei a porta para o mundo e vivi anos na companhia de uma alucinação!É claro que nada disso era normal...


Isso tudo fui percebendo aos poucos - a cada nova constatação, uma dor - segui meu tratamento e superei minha loucura, meu desespero, meu desequilíbrio e hoje vivo com Lionel e Cathy - que permanecem casados, e com o mesmo amor cúmplice e tranquílo.


E aqui, meus queridos leitores, encerro minha narrativa, minha história sobre uma mulher, cujo único mal foi ter amado mais do que podia.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Apenas mais tinta:

Criatividade para quê?

Sentir para quê?

Escrever é apenas

Botar a mão na caneta

E saber quando finalizar o começo.


Um papel em branco

Nada menos é que outro cheio de palavras

Palavras são fúteis,

São inúteis,

São vãs.


O branco

É meu silêncio.

A tinta,

Minha confusa

Barulheira.


E pena eu tenho

Dos que me leem

Dos que pensam que atrás

Da negra tinta do nobre polvo

Existem sentimentos.


Tolos.

Ingênuos.

Sonhadores alienados.

Escravos da própria imaginação.

Seres avoados, percam as asas.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Em que se encerra uma parte da história

"JJ continuou me visitando, todas as noites, no mesmo horário. Ele aparecia, sorria, mas não dizia nada, apenas eu conversava...e Lionel e papai continuavam desacreditados, até Cathy duvidava de mim!
Eles, então, passaram a me olhar de forma diferente, com cuidado e até pena, várias foram as vezes em que interromperam uma conversa devido a minha chegada. Pareciam estar planejando alguma coisa e , de fato , estavam.
O plano era me levar para uma clínica psiquiátrica - mais uma vez . Entrei em total desespero quando descobri, eu não podia ser internada, eu não era louca!Foi então que tomei a decisão que encerrou, de vez, todas as mudanças da minha vida.
No dia seguinte à descoberta, fugi de casa. Com apenas uma mala na mão e algum dinheiro no bolso, eu fui embora...
Não me lembro, ao certo ,como sobrevivi, sei que várias vezes dormi na rua, viajei de carona para outras cidades e tive vários empregos temporários...certo dia criei coragem e voltei a Willmington, mas aí soube que meu pai havia morrido e, tomada pela tristeza, fui embora novamente - Lionel e Cathy nem sequer ficaram sabendo da minha aparição.
E o tempo foi passando, consegui cuidar da minha vida e comprar uma pequena casa - onde moro até hoje - mas as coisas não estavam melhorando para mim. Eu era sozinha, completamente sozinha, minha única companhia era JJ ( não, ele nunca me abandonou!), tinha uma vontade imensa de voltar para casa mas não podia e , mergulhada nessa tristeza, minha vida foi se apagando em volta de mim.
Tranquei-me em minha casa, saindo apenas quando muito necessário, fechei para sempre todas as janelas e me acostumei com a noite constante...em que ano estamos meu querido? 2002? Pois bem fazem cerca de 20 anos que assim eu tenho vivido, digo, nós temos vivido, eu e JJ".

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Cova.

Jackie: Um copo de tequila, por favor. Sem gelo.
Dietrich: Dois copos, estou tentando parar... Uma Coca com gelo e limão, por obséquio.
Astronauta: Blue Label duplo, por favor. On the rocks. Beber é inútil, logo... Eu bebo.
Jackie: O que seria do útil se não o estragarmos um pouco?
Dietrich: De nada serve o útil regulado, felicidade não se conhece limites... Perdoem o exagero, acho que.. Deixe! *cala-se com a Coca*
Astronauta: Admito as inutilidades. Elas são, no mínimo, poéticas... Pergunte às pessoas se elas gostam das inutilidades; elas dirão que não e eu as chamarei de hipócritas. E ser hipócrita é inútil.
Jackie: Astronauta, está muito filósofo hoje.  Ofereça um gole de Label à Dietrich, minha tequila é fraca. Quero ouví-lo de dentro, inútil, eu sei, mas o desconhecido me intriga.
Astronauta: Ora, ora, e não é que ele aceitou? Grande ideia, querida Jackie, grade ideia! *risos* Estou filósofo, por que os filósofos também são inúteis. Assim como a Coca do nosso amigo Dietrich. Largue isso, meu caro, faz mal para os ossos. *tira a Coca de Dietrich.
Dietrich: Eu... Eu agradeço, mas não agradeço. Vou precisar mais do que álcool para me abrir, mas gosto de vocês.
Jackie: *rápida olhada ao redor* Não vejo cirurgiões plásticos aqui, amigo. Não vejo nada além do álcool. Aliás, vejo, sim. Te vejo se escondendo na sombra da fumaça de meu cigarro.
Dietrich: É que já estou cansado de ver outros sendo discriminados por aí, aprendi, por sobrevivência, a me esconder.
Astronauta: Experimente charutos, Jackie, é mais sofisticado. Mas você mesmo se discrimina, meu velho, com seu silêncio bêbado.
Dietrich: CHEGA! A culpa é do horrível mundo em que vivemos. Não sou eu, Astronauta! A diferença, a homossexualidade, é apedrejada todos os dias. E não sou eu!

sábado, 22 de outubro de 2011

Täglich Dietrich, dia 30 de julho, mãos responsáveis – 2.

*TAC* *TAC* *TAC*, estes sons ecoam em minha mente, *PIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII*. Fora tão simples, tão banal, tão sem cerimônias, tão pesado, tão triste. Apenas um abaixar de dedo, apenas um estalo, e o *pi* periódico se tornar constante... Tão... Destruidor.

Minha mão segurando a dele, meu coração formando imagens de ele acordando e falando comigo, voltando à rotina. Depois, lembranças, dele a balançar de mãos dadas com minha Oma em sua velha cadeira de madeira, que rangia tanto. Ambos sorrindo. *TAC*

*PIIIIIIIIIIII* E lá se foi, mais uma vida, a vida de meu Opa, ascendendo aos céus, sua alma dizendo adeus e, espero eu, prometendo visitas. Diário, estou tão triste, tão caído e já não sei se consigo me levantar mais. Será que o que coloria o mundo de meu Opa era a minha Oma, apenas? Será que tudo fica obsoleto quando se encontra o amor? Tudo... embaçado? Será que com a perda não conseguimos mais viver sem? Será que o humano se acostuma a esse ponto? Será que... Será que Pierrot é o meu?

Adeus, Opa, você fará falta nas reuniões familiares, você será lembrado sempre. Nós o amaremos para sempre e teu espírito será vivo como o de Oma, com o calor de nossos corações. Um grande e longo abraço,

Dietrich.

Täglich Dietrich, dia 29 de junho, mãos responsáveis – 1.

A pressão aumentou, recaiu a mim decidir se desligaremos ou não a máquina que mantém meu Opa vivo. Será a minha mão que o matará, que fará o coração dele parar, que o levará ao céu, ao lado de minha Oma, e essa é a única coisa que me conforta.

Chame-me de cruel ou qualquer coisa que quiser, diário, mas é isso que acho correto. De que adianta mantê-lo “vivo” neste mundo impuro, se ele pode ascender aos céus, ao lado de Deus, ao lado de Oma? Isso apenas o fará feliz... Se existir realmente um céu. Deus! E se nada houver no “outro lado”? Estarei mandando-o à escuridão?

Não posso, não posso... Ah, esse conflito em minha mente. AH. Porque esses piores deveres recaem em minhas mãos? Porque não posso apenas deixar outro que decida o destino dele, por quê?

Dietrich

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Quem se importa com título?

 Outra noite sozinho. Pessoas indo e vindo, ligações perdidas, mensagens atrasadas, um movimento constante e caótico, um redemoinho de informações a que em síntese.. não dou a mínima.

 Pessoas se cruzando na rua, trocando olhares falsos e palavras sem sentido.
- Nossa, que tempo maluco, não?
-Não!

 Engraçado como a solidão leva as pessoas a se sentirem idiotas... 
 Aquela sensação de nostalgia por um tempo perdido.. que nunca aconteceu, a vontade de gritar e ser ouvido.. mas não ter nada para dizer, o vazio interminável que precisa ser preenchido.. e que nunca será.

 Afinal, de que vale essa merda toda? Pessoas fingindo se importar, e quem se importa de verdade não se preocupa em demonstrar. O sofrimento de um é a risada do outro, o choro de um não importa a outro. Somos no fundo um bando de hipócritas ignorantes, que se preocupam com o próprio umbigo, queremos amar para ser amados, queremos vencer para sermos reverenciados, queremos viver para fazermos um show.. o sonho maior é no fim das contas entrar em um conto de fadas, ferrar com o bandido e ficar com a princesa e a glória.. nada mais importa.

 Até este discurso fajuto é hipócrita, como se o escritor estivesse apontando um erro de todos.. mas na verdade é um erro dele, que talvez seja de outros.. mas jamais saberei.. afinal o que acontece fora do meu quintal eu não sei.. de fato não me importo.
 Agora essa bosta desse desabafo já encheu também, melhor parar.
 Então todos que se fodam, porque eu não me importo mais.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Ganga, nos salve!

Aqueles cinco, dez, quinze minutos que... Ah! Que se diga uma hora! Aquela uma hora embaixo da ducha, aquela uma hora em que se recorda, em que se revive, em que se chora.

Aquela uma hora em que soltamos todos os orgulhos engolidos, os falsos risos, os socos escondidos: a santíssima trindade da depressão.

Talvez choremos naquela uma hora, unicamente nela, para que nossas lágrimas pareçam insignificantes em meio a tantas outras lástimas. Não! Isso não é sobre “eles”, isto é sobre tu!

Chore, mas não apenas chore. Faça algo, mude tua vida, resolva teus problemas, pois eles são teus apenas e ninguém o ajudará por suficiente. Liberte-se por si só. Assim, você poderá chorar pelo o que resta no mundo: chorar por amores perdidos, chorar por dores e sofrimentos, por um mundo sem sentimentos.